Alessandro Faleiro Marques*
Encantamento
e piedade não foram as únicas coisas a nos tocar na rápida peregrinação
ao Santuário Nacional. A capital católica do Brasil também tem as suas
profanas sombras. São em intensidade menor que as da outra, no planalto
central. Em Aparecida, contudo, parecem incomodar mais justamente
porque nos pegam despreparados.
Logo ao chegarmos ao estacionamento da Basílica,
sentimos muita falta dos caminhoneiros. Um antigo costume leva os
viajantes do Vale do Paraíba a fazerem um rápido pouso sob o manto da
Mãe de Jesus. Onde estariam? Talvez lá, reduzidos na imensidão do
templo, mas não os notamos. Que, pelo menos, os vejamos da próxima vez.
A
questão do comércio, demanda histórica dos mais críticos, também nos
chamou a atenção. Mesmo nós, resignados em um ambiente urbano,
acostumados com lojas ávidas pelo dinheiro das multidões e alimentadas
pelo carbono do ar, ficamos um pouco constrangidos com o tamanho do
chamado “Centro de Apoio ao Romeiro”. Sinceramente, não é muito
diferente dos
shoppings populares espalhados pelo Brasil. Que o digam os
fabricantes chineses. Tivemos certa boa vontade em ver de outro modo o
espaço, mas não deu. Pensamos, por exemplo, ser a música tocada
no centro da praça de alimentação uma dessas canções religiosas
modernas. Não era. Como em qualquer bom palco violão-banquinho, soava um
belo clássico de Djavan. Quando nos demos e fizemos as contas, as
sacolas já pesavam nossas mãos. Ofegantes, nós nos flagramos com uma
lista na mão e pouco no bolso. Não
pudemos nos defender frente à nossa consciência. Durante pouquíssimas
horas, perdemos o foco. Pagamos o preço. Literalmente.
Perder o
rumo da alma em Aparecida é muito fácil. Uma tentação. Parque de
diversões, aquário, mulher-macaco, feira que vende de um a tudo. O pior é quando eles
nos perdem a vista. Ficamos chocados quando, do mirante da torre, encontramos só a ponta da outra, a da Basílica Antiga. Antes, do alto da
colina, os peregrinos já podiam contemplar o histórico templo. Símbolo
de uma viagem bem-sucedida. Um dos célebres milagres registrados na
terra da Padroeira foi justamente o de uma menina cega que, ao ser
levada pela mãe ao santuário, perguntou de longe se aquele que via era o templo
de Nossa Senhora. A ganância de uns, a falta de senso histórico de outros e a ignorância de todos permitiram o cerco de concreto à antiga
igreja. Prédios de péssimo gosto arquitetônico sufocaram a praça e parte
da história do Brasil. O conjunto da igreja singela e da praça
sobrevive, desfigurado.
Ainda quanto ao gosto, fomos vítimas de
nosso orgulho. Pecamos de novo. Quando visitamos o santuário de Lujan,
na Argentina, tentamos provar algumas das iguarias preparadas por nossos
irmãos e vizinhos. As vísceras assadas definitivamente não combinaram
com o calor úmido daquele dia. Mesmo assim, salpicando críticas
cochichadas em português mineiro, engolimos alguma coisa. Pensamos que,
em Aparecida, no nosso santuário, seria nossa apimentada "vingança".
Caímos no canto da sereia, disfarçada de porteiro de restaurante.
Comemos a pior comida de nossa vida. Um espaguete profano e ruim. Sem
graça e caro, quase com direito a troco errado de sobremesa. Ponto para a
Nossa Senhora de lá.
Para encerrar a lista das observações mais
mundanas, não podemos deixar de mencionar de novo o comércio articulado
dentro do próprio santuário. Contemplamos o mirante e o museu. Visita
paga, mas justa e proveitosa. Na saída, a porta do elevador nos joga
para o corredor demarcado por cordas. Contra a nossa vontade, vimo-nos
empurrados para a lojinha, ao pé da torre. O silêncio mútuo da hora
denunciou: não gostamos. À direita, outra loja: artigos religiosos, água
do Paraíba e até ex-votos de cera. Como se eu, morando na casa
de minha mãe, vendesse o presente que você daria para ela. Na gloriosa
Sala das Promessas, o resultado: os membros de cera são praticamente
iguais. Produção em série. Por conveniência, os peregrinos estão
deixando de levar seus objetos cheios do colorido regional. Eles os
compram ali, ao lado. O espaço, resumo do Brasil, como já dito nesta
série, perdendo parte do brilho.
Não gostaríamos de terminar esta
série falando mal da Mãe. Afinal, ela nos acolhe e sabe nosso nome.
Temperos ruins, ganância e bolsos vazios não impedirão nossa volta à
casa da Rainha Morena. Pecadores também somos. Como acontece quando nos
aproximamos da mãe, aprendemos mais uma lição. Aqui virou reza: Mãe,
negra e pobre como os pobres escravos, Rainha rica em bondade e beleza,
fecha nossos olhos e ouvidos ao que nos desvia de teu Filho e de ti. Abre nossa alma
para ouvirmos o teu silêncio sábio. Permite podermos contemplar só a tua
sabedoria, os teus olhos e o teu doce e barroco sorriso. Que o sabor de
tua casa seja o do pão dos anjos. Sejam os caminhos planos, mesmo no
subir da Serra. Mãe, como fizemos em teu santuário, visita a nossa
casa. Amém.
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator, peregrino e revisor de textos
Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com)