sexta-feira, 10 de julho de 2009

Impressões da visita à Rainha Morena (3ª parte)

Alessandro Faleiro Marques*

“Infeliz quem não te conhece, padece em vão, sem consolo.” Esse trecho de um antigo hino à Padroeira do Brasil era um dos cantados pelos romeiros quando chegavam a Aparecida, depois de uma viagem sob voto de silêncio orante. Iam para prestar contas a Deus e ainda voltar no lucro, com o bolso espiritual pleno de paz. Assim ficamos ao visitar aquele lugar, excluído o jejum de palavras, por fraqueza nossa. Mais do que conhecer a dona da casa, o principal sentimento foi de sentir-nos reconhecidos por ela.

Na parte anterior destas impressões, o nosso espanto renovador diante da maior coletânea mística que já vimos: a Sala da Promessas da Basílica Nacional. Fotos, vestidos, armas, tudo quanto é objeto contando um pouco não só de fé. É tratado vivo de Antropologia, Teologia, Psicologia, História e outros saberes que, como os peregrinos, permitirem-se a tal experiência.

Faltaram-nos outros ex-votos afamados. Como as correntes quebradas do escravo Zacarias. Alforriado pela própria Mãe de Deus, feita negra para o Brasil. Quilombola-mor, guerreira plácida de uma aldeia multicor. Por ela tem cada filho contado e nomeado, tal qual em casa pequena. Ali coube mais um. Como ela, quem entende melhor de liberdade?

Na Sala das Promessas, não vimos também a pedra carimbada pela ferradura da montaria do incrédulo fazendeiro. Cabeça quente. Tentou entrar na casa da Mãe sem pedir licença. Malcriado corrigido sem palmadas, mas com susto dos bons. Ex-infeliz. Água suja mudada em vinho nobre. Braveza amansada. História mais rica. Em sabedoria oriental, a anfitriã hoje pensa melhor: “Imagine se prego no liso todos os que entrarem no santuário com alma pesada... quantas marcas de sandálias, sapatos, coturnos, pneus... Haja pedra e haja museu! Haja blog”. O ralhar ficou para aquele incrédulo. Afinal, há digno de entrar em casa feita santa? De que vale remédio para são?

Essas e outras relíquias as encontramos na torre do Santuário. Depois do assombro com as formas do templo, da serra e do Vale do Paraíba apontadas do mirante, descemos ao museu.

Lá estavam os testemunhos dos favores divinos mais conhecidos dessa parte do continente. Também as rosas de ouro dadas pelos papas. Honra nobre à hebreia humilde. Coroas, fotos e recordações. Restos do incidente: pequena imagem de barro virou pó. Ícone atacado por um jovem vítima dos próprios neurônios e de quem os manipulou. Mais uma terminada bem.

Tudo foi experiência. Mas a sede espiritual do Brasil também tem lá suas mazelas. No último artigo desta série, as nossas desventuras e cutucadas. Queixas contra os filhos. Só. Nós, pobres e pecadores romeiros, nossos pés passarão soltos no granito da entrada, felizmente.


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator, peregrino e revisor de textos
Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Impressões da visita à Rainha Morena (2ª parte)


Alessandro Faleiro Marques*

No artigo anterior, o primeiro contato com a monumental Basílica de Nossa Senhora Aparecida, no Vale do Paraíba. Agora, depois da avidez do olhar e das pernas, um pouco de detença.

As horas por lá foram insuficientes para vermos tudo, mas o que sentimos já nos fez participar do capítulo começado no segundo semestre de 1717. A história tem lá suas vaidades. Quando nos assustamos, nela estamos. Criatura esperta. Nós nos damos conta, e já nos pegaram as linhas dos registros. Não há como escapar.

Para as estatísticas, éramos um nada. Dois pontos. Para a "dona da casa", um filho e uma filha juntos com mais dezenas de milhares de irmãos. Coisas de mãe de Onipotente.

Aparecida parece zombar de tamanhos. A cidade e a imagem da padroeira, minúsculas; a fé do povo, imensurável. Diante desta, o templo gigante e a passarela curva nem se comparam. Do chegado da roça ou romeiro da metrópole, de quem já viu tudo ou ainda verá, grande parte do Brasil parece querer caber naquelas colinas. Provar isso é fácil.

Se o País fosse um livro, certamente o sumário dele estaria no subsolo do santuário. Outrora nas paredes da antiga igreja, os reorganizados ex-votos são testemunhas silenciosas de choro e alegria. Sofrimento tornado júbilo. Lágrima enxuta tornada crença nova. A Sala das Promessas, como é chamada, tem rastro de doutor e de peão deste e até de outros povos.

Do teto, milhões de rostos parados em fotografias parecem querer gritar aos que chegam: há o além-palpável. Esperança existe, e é o terminar bem de tudo.

Ressurreição é pra vida toda. Olhando para a parede, vê-se a imagem da padroeira vigiando em sorriso. Mais uns passos, as panelas do avesso, os diplomas, as ferramentas, os capacetes, as fardas e as medalhas. Depois da pilastra, os quadros, os vestidos de noiva, as bandeiras. Ao canto, a réplica do barco dos três pescadores que, no século XVIII, atualizaram o milagre dos peixes do tempo de Cristo. Mais um olhar para cima, e as peças de cera. Braços, pernas, rins, cabeças formando o corpo das dores curadas. No armário, armas. Embaixo, símbolos enfileirados de atletas. Ali, humildes, membros do mesmo time.

O murmúrio dos visitantes abafa o antigo sofrimento emanado dos vícios empilhados em outra prateleira. Coisa dura de ver. O que na tevê é sorriso de comercial, na sala dos milagres, é sobra de amargura. O riso de verdade parece existir agora, mas distante das garrafas, maços e cartas.

Naquele subsolo, tivemos a certeza: erramos acompanhados neste mundo. Nem museu, nem pura exposição ou ponto turístico. De tudo era naquela ponta de livro vivo. Sentimos falta das correntes quebradas, da pedra carimbada pela ferradura. Mas nós as encontramos depois. Assunto para a próxima parte deste artigo.


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator, peregrino e revisor de textos
Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Impressões da visita à Rainha Morena (1ª parte)

Alessandro Faleiro Marques*

A verdade: o coração não batia do mesmo jeito. Enquanto avançávamos a estrada paralela à Via Dutra, vencíamos com mais voracidade cada metro engolido pelo carro preto. Nosso destino pareceu estar mais próximo. Não pela indicação das placas, mas pelos homens seguindo no canto da via. Passos rezados, cajado e mochila. A fé deles indicava que estávamos no rumo.

Depois da sequência de curvas, cada pulsação dentro da gente abafava teorias, críticas, ideias preconcebidas. Ao contornarmos a última curva, eis que surge o topo da impressionante torre. Admiramos em voz alta. Outra curva. Ela sumiu. Mais uma contravolta, e lá estava. Gigantesca. Vermelhamente monumental. Éramos engolidos pelo pátio posterior da segunda maior igreja do mundo. Subimos a rampa e nem nos importamos com o preço do estacionamento. Estávamos boquiabertos. Nem sabemos se o troco foi o certo. Queríamos conferir mesmo era se os nossos olhos estavam vendo o Santuário Nacional. Colossal construção a envolver a minúscula imagem aparecida do barrento eme do rio Paraíba.

Tivemos de respirar: emoção e viagem sinuosa desde a ponta da Serra da Mantiqueira, onde ficava Campos do Jordão, terra cheia de europeísmo. Na planura do Vale, juntava-se parte do verdadeiro Brasil. Gente de tudo quanto é cor, sotaque e condição. A nossa reserva de admiração era tanta que começamos o passeio já no grande pátio, em torno do círculo de túmulos episcopais dispostos na ponta de um dos braços abertos em curva.

Andamos rápido. Olhos em tudo. “É logo ali”, disse o guarda. Nem nos lembramos se o agradecemos. Que aqui o seja feito. Subimos a rampa ao som do canto coletivo. Olho fixo na parede, à esquerda. Ao ritmo de nossos passos, ela se nos mostrou naquele fim de manhã do sábado. Lá estava a pequena estátua no nicho nobremente metálico. Em milésimos de segundo, os joelhos dobrados jogavam por terra teologia e tudo quanto é racionalidade. Que se danem os livros! Lá estava a representação da Virgem. Morena da cor de muitos de nós. Assim a Mãe adotou o Brasil.

No silêncio envolvido em vidro blindado, o ícone coroado parecia aumentar o sorriso do barro cozido. Quantas fotos, quanta gente naquele maio. Não sabemos dizer (aliás, pouca coisa se explica em Aparecida), mas tivemos a mesma impressão: a mais brasileira das hebreias estava nos esperando. Parecia saber nosso nome. Nome, sobrenome e vida de cada um que se organizava por entre as barras de corrimão. Revelação que fizemos mutuamente durante o destemperado, deselegante e caro almoço da cidade velha.

Tudo majestoso. Por onde os olhos se voltavam, interjeitavam-se a correição de peregrinos, as pinturas, os corredores, a cúpula, as capelas. Mas a pequena imagem, coroada, mas humilde, representava a maior das mulheres.
No palácio e arredores, não faltam particularidades. Mas isso é assunto para a segunda parte deste artigo.


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator, peregrino e revisor de textos
Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Sentidos da rua torta


Alessandro Faleiro Marques*

Pelas minhas contas, passo por aquela via sinuosa há mais de uma década. A pé, de carona, de caminhão, orando, com unha encravada, confabulando sozinho ou acompanhado, dentro do meu carro, correndo de temporais, com febre ou com pressa, tenho vencido as poucas centenas de metros pelos anos. Nela já vi de cardeal a padre raso, de soldado engomado a ladrão lacrimejante, trabalhadores, artistas, vadios e até ninguém.

Por alguma razão meio explicável, a tal rua tem feito parte de minha história. E só notei isso ultimamente. Com atraso, reconheço. De uns tempos para cá, estou olhando com mais atenção aquele risco cartográfico cheio de porções de asfalto, cimento, buracos, grama e pontas de tropeço.

Quando ainda estudava na faculdade, era um excelente atalho. Generoso para a vista. Do início ao final do trecho, eu podia ver belos e vespertinos horizontes não só da própria Belo Horizonte, mas de parte de Contagem e até de outros lugares os quais minhas células oculares não conseguem separar como nos atuais mapas eletrônicos. Pelas calçadas convenientes, conseguia chegar a tempo para eu não perder os primeiros minutos das aulas do curso de Letras, ainda mais quando o motorista do ônibus resolvia não parar no ponto que me deixava só na metade do caminho. Cá entre nós, depois colocam a culpa no governo pelo problema do transporte coletivo... Para a frustração dos meio-politizados (e para a minha), não é só dele a responsabilidade pela ineficiência. Sou disso testemunha muscular. Fato: o desvio realmente encurtava a canseira.

Pouco tempo depois, arrumei serviço na região. Por ironia, precisaria tomar a mesma linha cruel, mas em um horário mais para laudes ou ordens do dia. Onze anos depois, mudei de empresa. O endereço da novidade também me força a transitar pelo lugar.

Olhei para o lado estes dias. Estão acabando de construir um prédio. Está lá, do lado direito. Justamente onde eu podia tentar achar o meu bairro. Perdi uma cara atração. Para não ficar de graça, porém, escrevo e não apago: não sou doido de morar naquele columbário. Fica perto do pequeno, mas ativo aeroporto. E se algum piloto inventa de tomar umazinha antes de pousar e acaba errando a pista? É perigo! A chance pode aumentar se o sujeito for incrédulo e se esquecer de jogar no pé da planta a augusta dose do santo. Não é pessimismo não, mas eu já pensei. E deu tempo. Coisa de quem caminha.

Essa história de prédio no meio da reta de meu bairro e do avião anda colocando em mim uma espécie de lente. Não consigo mais olhar do mesmo jeito aquela em si companheira de andança. Um filtro ótico tem-me feito observar situações antes despercebidas. Reconheço que o espaço só começou a me interessar de verdade depois de alguns fatos meio surreais, espantosos. Como em tantas ofegantes pernadas, não perderei tempo. Vou direto contando.

Como explicar, de um ônibus escolar, às seis e meia da manhã, bem na minha frente, descer um menino? O pequeno loiro, de merendeira e tudo, saltou do veículo, agradeceu ao motorista, abriu o portão e entrou em casa. Imaginei ser coisa de cidade grande, que costuma ter mania de não querer dormir (pensa que é um atributo). De repente, seria um jardim de infância na madrugada. Imagine ser vizinho de uma escola e da barulheira emanando da saúde dos pequenos em plena madrugada! Eta, isso parece coisa do bicho-ruim, e com minúscula mesmo! Diminuí a marcha e fiquei olhando a bizarrice.

Como agora, pensava estar no meu pleno juízo, apesar de não o querer naquele dia. Assim seria mais fácil defender-me das risadas descrentes. O pior de tudo: desde a primeira visão, há uns oito anos, essa cena repetiu-se por quase uma dezena de vezes, sem carreira certa. Parece pouco, mas foi o suficiente para eu novamente deter a pressa, provando a importância do fenômeno. Acha que, um dia, vou perguntar alguma coisa para aquelas criaturas? Eu não! De repente, o menino e os outros do ônibus podem não ter olhos, falar alguma profecia catastrófica de mim, soltar fogo pela boca... Prefiro é ficar encucado mesmo. É um problema e um motivo a menos para forçar-me à corrida apavorada por aqueles passeios cheios de desníveis. Valei-me, Deus, pode ter buraco novo!

Pouco tempo, muitas ambulações e economias depois, consegui comprar um carro já rodado. Alívio! Foi minha desforra contra o poder público e o motorista que gostava de deixar-me a ver nada no ponto. Mais feliz fiquei quando descobri ser mais barato eu ir trabalhar no meio particular que no público. Depois senti vergonha. Obviamente, nas minhas contas, ignorava a manutenção e a pancada de impostos a punir o meu suado conforto. Ainda bem: um inteligente qualquer criou a expressão “custo-benefício”. Assim minha consciência continuava jubilosa. Agora sim, veria a rua por outro ângulo. Orgulhosamente, começaria a andar no meio dela, em mão e contramão. Ganhei tempo, maciez no banco e uns quilos, os quais não consegui perder até hoje, indulgenciando-me de novo com o tal custo-benefício.

Pois bem, numa manhã fria, uma senhora saltou na frente do meu veículo. Respeitável e agasalhada, contou-me ofegante ter sido esquecida pelo filho encarregado de levá-la para a missa, celebrada num convento no final da via, à esquerda. No curtíssimo período, só não falou meu nome e sobrenome. Parecia saber de quase tudo de minha vida. Realmente eu me lembro bem dela. Passava por mim todas as manhãs. Usava cachecol, mesmo no verão. Contou detalhes do meu cotidiano, onde eu trabalhava, ofício e até horário... Chegamos rapidamente à porta da capela; um ou dois minutos. O tempo foi o suficiente para deixar-me boquiaberto e ganhar da piedosa vovó a promessa do pagamento em moeda de preces. Lembrei: a anciã sempre andava na direção contrária do ônibus anti-horário. Não a encontro mais.

E como explicar o caso da Dona Maria? Eu a tinha assim por pura falta de criatividade e porque achei ser esse mesmo o nome dela. Sempre a ultrapassava, quando eu estava a pé ou motorizado. Sentia-me uma carreta morro abaixo ultrapassando um fusquinha antigo morro acima, daqueles que funcionavam à base de cadarço movendo a roldana do motor. Sim, dava-me um prazer mesquinho deixá-la para trás. Esse era sempre um pequeno desafio a ser vencido. Puro deleite egoísta. Um venial pecado matutino, nada mais. Minha graça terminava logo. Não sei o porquê, mas a tal Dona Maria sempre já estava no ponto do ônibus coletivo (este convencional) quando eu passava por lá. Boas dezenas de metros na minha frente. A mulher pegaria carona com o escolar assombrado? A vantagem foi ver que o pecado da ultrapassagem já fora vingado, dispensando-me, na minha teologia própria, da confissão deste e de outros semelhantes. Para eu não baixar a crista, continuei deixando-a para trás quando conseguia mirá-la pelo caminho. Nem quis saber. Ficasse ela com o mistério, e eu, com meu pecado perdoável. E ficamos conversados.

Enigma também no moço do guarda-chuva. Previsível, pontual. Tanto que quase o esqueci neste conto. Com sol ou não, está lá. Parado, olhando para um lugar alto e fixo montado psiquiatricamente em uma direção diferente a cada dia. Sentinela da natureza. Que o digam as galinhas gordas e bravas alinhadas num poleiro da casa vizinha à loja de carros antigos. Pelo menos tem um serviço. Se ele sumir, sentirei falta.

Rua que assombra e é assombrada. Ontem, ia com meu novo carro velho. Devagar. A experiência adquirida em pouco mais de uma década me permitiu ser menos apressado, pelo menos ali. Olhar mais atencioso àquela trilha com nome. Atrás de mim, uma nuvem gigantesca. Chuva rodeante e dependurada para cair. Trovão em tom de caçamba despejando pedra. Subia pela única colina do trajeto uma senhora. Mais uma usuária da estrada urbana. Confiante e caridoso, freei. Falei da tempestade vizinha. Abri a porta. E ela negou a carona... Esqueci-me das regras da metrópole. Com minha gentileza, dei-me por errado. Valor invertido, mais um.

À noite, encontrei-me com um amigo, companheiro de passagens mais retas. Contou-me que uma de suas colegas do trabalho chorou o remorso encharcado. Perto do aeroporto, ela negou uma carona oferecida. Pensava depois ser a do próprio anjo da guarda.



Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos
Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com)
 

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Que nos separemos

Alessandro Faleiro Marques*

Ela veio chegando mansamente e, mais ou menos, nos últimos três anos, entrou em minha vida. De repente, a inesperada companheira começou a andar comigo por onde eu ia. Não perguntava se podia. Simplesmente entrava comigo no carro, no ônibus e me seguia nos meus passeios, que, a cada dia, tornaram-se mais escassos.

De cara, já digo: não gostei. Era feia. Feia não, era assombrada como palavrão em sexta-feira de Quaresma. Eu tentava reagir, mas não adiantava. Pudera, a intrusa parecia não respeitar desejo de ninguém. Ela fazia o que queria, quando e onde bem entendia.

No início, era só um micromote para piadas ou outras conversas para passar o tempo. Entre risadas e goles, descobri: eu não era o único escolhido. Um amigo próximo chegou a confessar que passou em claro uma noite com a tal. Uma não, várias e várias noites. Mais tarde, ele me disse: foram também dias. Não fiquei com o menor ciúme, posso garantir.

Aos poucos, ela foi tomando conta de minha vida. Começou a implicar comigo quando eu me sentava ou me levantava. Era tão possessiva que nem dançar eu podia mais. Por causa dela, minha rotina começou a mudar. As gargalhadas dos amigos e até as minhas começaram a diminuir quando ela era o tema dos colóquios outrora gratuitos. Tive até de parar de fazer as tais caminhadas prescritas pelo telejornal da tarde. No fundo, confesso, até achei bom, pois meu espírito sedentário andava louco por colocar a culpa em alguém para voltar à cômoda posição ociosa. Nesse ponto, tinha pouco a me queixar da que forçava ser minha parceira.

Mesmo que ela insistisse, não tinha a menor intenção de juntar-me, amasiar-me, amigar-me, sei lá... A presença da ordinária não me inspirava nenhum sentimento de poesia, de fidelidade, de cumplicidade, de qualquer união estável, contratual civil ou religiosa, ou o que fosse. Rezava todos os dias para que a vida nos separasse.

Não me largava a infeliz. Pelo contrário, a cada dia, ela estava mais afeiçoada a mim. Parecia uma possessão das grandes. Cruz credo! Deixei de ter vontade e de ser livre. Dei-me conta de algo que, ao mesmo tempo, é e não é, controlando-me inclusive por dentro. Ave Maria!

Eu me rendi. Agora, não conseguiria resolver esse problema sem ajuda de outros. Uma lição de humildade que, infelizmente, sou obrigado de novo a creditar à companheira egocêntrica. Lamentei mais uma vez receber coisa boa dela, dessas que nos fazem crescer. Isso só contarei aqui. Farei tabu do aprendizado. Não espalharei e não farei propaganda da dita cuja. Não estou com a menor vontade de agradecê-la por nada. Afinal, ela me ensinou, mas foi caro. Custou-me tempo, dinheiro e os comentários maliciosos de alguns.

Armei verdadeira estratégia bélica. Resolvi: eu faria de tudo para tirá-la de minha vida. Entre idas e vindas a benzeções, banhos pouco aromáticos, terapias e aconselhamentos, quase fui atropelado, perdi tempo e meu telefone móvel e, algumas vezes, deixei até de comer do bolo de aniversário de meus colegas de trabalho.

Quando soube dos meus planos pouquíssimos secretos, a sirigaita, em atos surreais de zombaria, começou a acompanhar-me também na luta que armei contra ela, acredite. Como vingança, tirou o meu pouco garbo. O peso daquela cruz acabou interferindo em minha postura. As olheiras e a barriga aumentaram em mim. E ela, tal qual no início, cheia de si. Ela era fiel, nem queria saber se eu tinha boa aparência. As meninas deveriam aprender isso dela, contra a minha vontade, dou esse conselho.

Certa vez, por causa desse arremedo de bicho ruim, eu me senti tal como atração de zoológico. Isso aconteceu em uma dessas terapias alternativas. O que eu estava fazendo lá, meu Deus? Não tive tempo de arrepender-me. Não houve passe, reza, nada! Só encheram meu corpo de fios, e descarregaram progressivamente incômodos volts em mim. Meus músculos começaram a pular e, para uma pândega observação pseudocientífica (para mim, é claro), o responsável prendeu o respiro do riso, observando aquele pequeno terremoto muscular. Vieram outros e mais outros. Em poucos minutos, eu era dissecado virtualmente pelos especialistas. Eu soube até mesmo o nome técnico da minha nádega direita, dito por uma torta senhora vestida de branco. E a cruel companheira lá, faltando pouco ter um acesso de tanto gargalhar. Reza brava, sacramento, exorcismo, unção de tudo quanto há... Que nada! Meu “encosto” não me deixava nem eu ficar de joelhos direito.

Ultimamente, para o meu júbilo, anda meio desanimada. Será que a relação anda monótona para a ela? Bem feito! Tomara que sim. Às vezes, a danada chega tarde, sem dizer por onde andou, mesmo sabendo que nunca perguntaria isso a ela. Não quero nem saber! Vou continuar fazendo de tudo para livrar-me dessa pagã, essa tal dor nas costas que eu arrumei.


Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos
Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Novo Acordo Ortográfico: mais polêmica depois do VOLP


*Alessandro Faleiro Marques

Já começa a circular a quinta edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), elaborado pelos “imortais” da Academia Brasileira de Letras (ABL). A notícia é excelente, já que poderá pôr um ponto final em várias discussões entre profissionais e amantes da língua de Camões, Machado de Assis, Fernando Pessoa e Guimarães Rosa (deste também!). Note: poderá! Ao se fazer um rápido confronto entre os dicionários e manuais lançados recentemente, pode-se ver que foi perdido muito do esforço dos autores que tentaram desbravar o Novo Acordo Ortográfico .

Como quase toda grande mudança, há tumulto mesmo, mas, desta vez, as coisas estão mais tenebrosas. Diferente dos novos dicionários, “pé de moleque” não tem mais hífen para a ABL, tanto faz ser o delicioso doce quanto a parte do corpo de um menino travesso. O mesmo aconteceu com “dia a dia”, expressão que será usada sem hífen no sentido de cotidiano e no de sequência de dias.

Diante dessas e de muitíssimas outras “novidades”, ficam várias dúvidas e umas poucas certezas. Entre os questionamentos, pode-se perguntar: se o Novo Acordo estava elaborado há tanto tempo, desde a década de 1990 no mínimo, por que a ABL esperou que ele entrasse em vigor para somente depois lançar o VOLP? Por que não o publicou com a mesma voracidade que os dicionaristas? Será que faltou a alguns “imortais” a sensibilidade de ver que a maioria dos falantes está no mundo de mortais, em que a agilidade é um valor?

A verdade comprovável até agora é que os mais prejudicados (pra variar) foram os consumidores, que correram para manter-se atualizados com a nova ortografia e compraram gramáticas, manuais, dicionários e outras publicações. Os editores (exceto os do VOLP) também foram novamente penalizados. Depois de refazer os livros, agora terão de readaptar as obras ao novo vocabulário da ABL. Nada mais inconveniente nestes tempos da anunciadíssima crise.

As polêmicas não ficam por aí. Envolvem também política. Portugal, que parece não estar com tanta pressa em alterar sua ortografia, mesmo tendo assinado o Novo Acordo, não gostou muito da iniciativa brasileira. Se, por acaso, os “imortais” do país de Eça de Queirós lançarem o próprio Vocabulário Ortográfico (o que não se pode duvidar), estará decretado o insucesso dos objetivos principais da atualização, que seriam tentar padronizar a escrita e fortalecer a língua portuguesa no cenário mundial. Seguindo a tendência, os lusófonos da África, seguindo ou Portugal, ou Brasil, ou a própria autodeterminação linguística, ajudariam a dividir o reino, enfraquecendo-o. Será que esse problema foi discutido durante os chás dos acadêmicos?

Aqui uma ousadia: aos “imortais” vai um agradecimento e uma súplica. O muito obrigado vai pela dedicação do novo VOLP “aos que usam a língua portuguesa como bem comum” e pelo convite “a colaborar com achegas, sugestões, críticas e correções”, tudo para o aperfeiçoamento da obra. Caros acadêmicos, realmente essa obra é grandiosa e será útil. Agora, por Deus, este o verdadeiro imortal, não corrijam mais nada.


*Professor, revisor de textos e redator


Texto originalmente publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com.)