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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Fome, obesidade, desperdício: um problema de todos nós

Antônio Coquito

A afirmativa do senso comum de que o Brasil é o país da contradição traz à tona o debate e a busca de soluções no campo da segurança alimentar e nutricional sustentável. Trata-se do tripé “fome, obesidade, desperdício”. A ação direta nesse dilema é um chamado a toda sociedade, para assumir um papel de conscientização pública e reversão de indicadores preocupantes. Os desafios devem fomentar reflexão e busca de atitudes imediatas.

O Brasil é um dos principais produtores de alimentos do planeta. Temos a maior e mais rica oferta de produtos alimentícios. Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (ONU - FAO) mostram que o nosso país produz 25,7% a mais de alimentos do que necessita para toda a população. Porém, dessa realidade, constamos que uns comem de menos, em condições inadequadas. Já outros, demais e com hábitos alimentares nada saudáveis. E, por fim, outros destinam boa parte dos alimentos ao lixo, configurando-se em toneladas de desperdício.

Fome

A radiografia da fome deve nos incomodar para a busca de soluções urgentes. Dados da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), relativa a 2009, apontam que 11,2 milhões de pessoas passaram fome no período. Os números dão conta de que 30% dos lares brasileiros não têm acesso regular e permanente a alimentos de qualidade e em quantidade suficiente.

A PNAD mostra que a fome brasileira tem uma identidade nordestina, rural, pobre, negra e de baixa escolaridade. Segundo dados da pesquisa, a situação de insegurança alimentar atinge aproximadamente 8,6% (nível moderada) e 7% (nível grave). Já na área urbana, os dados são de 6,2% (moderada) e 4,6% (grave). Em se tratando de regiões, o Norte e o Nordeste do Brasil apresentam níveis inferiores à média nacional no que se refere à segurança alimentar. Os Estados com situação mais grave são Maranhão (35,4%) e Piauí (41,4%). A pesquisa constata que, nesses Estados, nem a metade das residências têm alimentação saudável e em condições adequadas. A região Sul é a que tem melhores condições.

O grau de instrução está ligado diretamente às condições de insegurança alimentar. Os dados da PNAD mostram que quanto menor a escolaridade, mais precária é a alimentação. Segundo a pesquisa “Em 2004, 29,2% dos moradores sem instrução ou com menos de um ano de estudo apresentavam restrição na quantidade de alimentos moderada ou grave”. Já em 2009, a proporção caiu para 20,2%. Mesmo tendo melhorado os indicadores, a situação continua a desafiar os profissionais da área de nutrição.

Obesidade

O aumento de peso da população brasileira dá indícios de que temos um problema de saúde pública. Segundo dado da Organização Mundial de Saúde (OMS), existem no mundo mais de 1 bilhão de adultos com sobrepeso e 300 milhões com obesidade. A obesidade é fator de risco para problemas cardiovasculares, de diabetes, hipertensão arterial e certos tipos de câncer. Na saúde pública, o quadro de obesidade brasileira reflete em R$ 1,5 bilhão na conta do Sistema Único de Saúde (SUS).

Dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE apontam que a obesidade cresce em todas as regiões do Brasil. Os números afirmam que “o sobrepeso atinge mais de 30% das crianças entre 5 e 9 anos de idade, cerca de 20% da população entre 10 e 19 anos e nada menos que 48% das mulheres e 50,1% dos homens acima de 20 anos”. Levando-se em conta o poder aquisitivo, entre os 20% mais ricos, o excesso de peso chega a 61,8% na população de mais de 20 anos. Também nesse grupo, concentra-se o maior percentual de obesos: 16,9%. No ritmo em que estamos, a previsão do IBGE é que, em dez anos, poderemos atingir os padrões norte-americanos.

Atenta aos dados de obesidade e sobrepeso, a Assembleia Mundial da Saúde, entidade deliberadora da OMS, chamou a atenção para o problema. Em seu documento, “Estratégia global em alimentação, atividade física e saúde”, a instituição adverte aos governos de todos os países que se comprometam em implantar políticas que estimulem padrões saudáveis de alimentação e de atividade física.

Desperdício

A trajetória do desperdício começa na produção de alimentos. O IBGE deu o alerta: “estamos desperdiçando cerca de 6 milhões de toneladas de alimentos”. Explicitando o desperdício, dados do Instituto Akatu, que trabalha pelo consumo consciente, 44% do que é plantado se perdem na produção, distribuição e comércio. Sendo, 20% na colheita, 8% no transporte e armazenamento, 15% na indústria de processamento e 1% no varejo. No consumo caseiro e hábitos alimentares, as perdas acumulam mais de 20%. No total, o desperdício significa algo em torno de 64%.

Os números do Akatu sinalizam que, ao mesmo tempo em que 14 milhões de brasileiros passam fome, “o restante da população joga no lixo 30% de todos os alimentos comprados”. Os dados o Akatu são reforçados pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a qual constata que o brasileiro desperdiça mais do que consome. Os dados do IBGE confirmam o consumo de 35 quilos por ano. Unindo os dados da Embrapa e do IBGE, a perda é 2% maior do que o consumo. O índice de hortaliças chega a 37 quilos. Essa situação tem um perfil que aponta 20% em casa, 15% nos restaurantes.

A preocupação com uma ampla conscientização sobre o desperdício tem consequências econômicas, ambientais e sociais. Dedicando-nos a combater o desperdício e a promoção de bons hábitos alimentares, proporcionamos o acesso ao alimento para boa parte da população. Dessa forma, levando bem-estar e vida saudável.

Soluções

Onde há problemas, temos de buscar soluções. As iniciativas de reversão dos dados assustadores são diversas e podem ser realizadas por todos. Existem várias atitudes que envolvem os mais variados atores sociais. O importante é conhecer o contexto e agir. Um exemplo é a aquisição de produtos locais e, ou, regionais, além de mais saudáveis e com custo mais baixo, contribuem para diminuir a poluição e o desperdício causado pelo transporte.

Em casa, nos restaurantes, nas escolas e instituições, podemos implantar a cultura do aproveitamento integral dos alimentos. No preparo, sempre que possível, reutilizar as cascas e talos. Todos podem resultar em sucos e tortas, bem como enriquecer arroz, sopas, risotos e outros.

O quadro brasileiro é um convite à intervenção nas políticas públicas municipais, estaduais e nacional de saúde, segurança alimentar e cidadania. Nas políticas e nos programas sociais, encontramos canais efetivos para realizar ações com atuação local, que contribuam na reversão desta que pode ser considerada uma agressão conjuntural colocada diante dos nossos olhos.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Desintoxicação digital


Alessandro Faleiro Marques*

Recordo aqui um artigo escrito por mim há algum tempo, intitulado “O segredo da desinteligência”. Passaram-se os anos, mas vi que quase nada mudou. Por isso, retomo alguns pensamentos. Como educador, cada vez mais me convenço de que existe o lado oposto da aprendizagem, do crescer acadêmico, espiritual e sapiencial. Essa parte tenebrosa é o “emburrecimento”, termo mais adequado ao nosso cotidiano. Nos meus tempos de faculdade, nenhum dos meus mestres ousou tocar no assunto do “não inteligenciamento”. Isso nos desanimaria ou seria um segredo só para os já iniciados?

Para mim, uma das causas do mal é a ingenuidade, o deslumbre idiota diante de certas inovações. Outro dia, li um artigo dizendo que adiantou pouquíssimo encherem-se de computadores as escolas. Fiquei impressionado com o fato de isso, sim, ter aumentado os casos de déficit de atenção. Em resumo, o projeto de abarrotar de aparelhos as salas de aula só serviu para dar mote para propaganda governamental, atrair pais e alunos (chamados de clientes pelas redes) e para encher a cabeça de crianças e adolescentes de muita, muita toxina digital. São tantas informações que os neurônios da moçada estão dando curto-circuito. O intento, a princípio bom, ainda saciou o desejo de orgasmo pedagógico de alguns mais “empolgados”, achando que a simples eletronicização didática colocaria escola e jovens “ligados ao mundo e à modernidade”.

Apesar do encantamento, está havendo pouco ou nenhum preparo dos educadores para melhor aproveitarem o recurso. Os jovens também não foram preparados. Adolescentes, crianças e adultos ficaram apenas boquiabertos com a tecnologia e, estéreis, entregaram-se a ela. Valorizou-se muito o meio, não o fim. Dias atrás, dei boas gargalhadas ao ver a foto de um colégio afiliado a uma grande rede promover a entrada solene de um tablet (cá entre nós, prefiro “tabuleta”) gigante, feito de madeira e que seria usado para... colar cartazes (!!!). Será que, nas décadas passadas, fizeram o mesmo com a máquina de escrever, o mimeógrafo ou a calculadora digital? Eu riria do mesmo jeito, creio.

O excesso de dados entope a cabeça das pessoas. É um fenômeno comum na Pós-modernidade, tempo marcado pela rapidez, barulheira, mosaiquices e descarte fácil de coisas, ideias e pessoas. Cabeça sufocada é fruto de mundo caótico e vice-versa, fazendo muita gente viver só porque nasceu.

Em vez de reclamar, ouso sugerir uma “campanha de desintoxicação digital”. Selecione suas leituras, seja frio. Descarte o inútil, veja o essencial. Faça o jejum cibernético e analise se realmente aquela parafernália real e virtual é essencial para sua vida.

Sejamos seletivos, questionadores e preocupemo-nos em colocar no devido lugar o útil mundo digital. Tenhamos cuidado para não sermos motivo de chacota gratuita de nossos descendentes. Digamos sim às maravilhas dos avanços, mas também ao olho no olho, ao inteligenciamento, às luzes; e proclamemos um sonoro não à avalanche de textos, vinhetas, piadas, curtidas, álbuns, fofocas, gráficos e infográficos. Desintoxiquemo-nos!


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site da Athom 3 Consultoria (www.athom3.com.br).



terça-feira, 8 de outubro de 2013

Falta qualidade nas escolhas da alimentação fora de casa

Antônio Coquito*

Brasileiro está comendo mais açúcar, gordura e sal

O brasileiro come mal quando se refere à qualidade nutricional. A consequência da má alimentação é o crescimento de casos de câncer, doenças cardíacas, diabetes, hipertensão, obesidade, entre outros. Cerca de 70% da população fazem suas refeições em bares, restaurantes, lanchonetes e nos locais de trabalho e estudo. A realidade pode ser constatada na pesquisa sobre a Análise do Consumo Alimentar Pessoal no Brasil do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).

Como comemos

Café da manhã, lanches rápidos, almoço e jantares. A vida cotidiana força à “alimentação na rua”. Os dados coletados pelo IBGE e pelo Ministério da Saúde (MS) na Pesquisa Medidas Referidas para os Alimentos Consumidos no Brasil - Pesquisa de Orçamento Familiar (POF-2008-2009) mostram mudanças significativas no hábito alimentar. Arroz, feijão, café, sucos, refrigerantes e carnes bovinas continuam tendo seu lugar nas opções de alimentos.

A radiografia do hábito alimentar, constatada na POF, preocupa ao apontar o crescimento do consumo de açúcares, gorduras e sódio. Traduzindo: aumentou-se a ingestão de biscoitos recheados, salgadinhos, pizzas, doces e produtos com alto teor calórico e com insignificantes valores nutricionais. No contraponto, cerca de 90% dos brasileiros não consomem frutas, legumes e verduras, contrariando a orientação do Ministério da Saúde. Também tem sido extremamente baixa a ingestão de cálcio e vitaminas D e E.

Dados alimentares

O IBGE e o MS sinalizam que os hábitos dos brasileiros que vivem nas cidades concentram-se em salgados fritos ou assados (53,5%), pizza (42,1%) e sanduíches/hambúrgueres (41,8%). Ao lado desses dados, outros números preocupantes são os de bebidas em excesso: o consumo de destiladas (50%) e de não alcoólicas (47,9%). Já para a população que vive no meio rural, os dados apontam sorvete (56,3%), pizza (52,6%), salgados fritos e assados (48,4%), bebidas destiladas (26,4%), refrigerantes diet-light (31,5%) e o regular (36,5%).

Na zona rural, segundo informações do IBGE/MS, há grande consumo de arroz, feijão, batata-doce, mandioca, farinha de mandioca, manga, tangerina (mexerica ou bergamota), peixes frescos, peixes salgados e carnes salgadas. Porém, nas cidades, os alimentos em alta são os prontos para o consumo e, ou, processados, como o pão de sal, biscoitos, iogurtes, vitaminas, sanduíches, pizza e salgados fritos e assados. Além destes, os refrigerantes, sucos e cerveja.

Essas informações se somam aos dados recém-divulgados pela pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel 2011) que confirma a necessidade de mudanças nos hábitos alimentares. Os dados da Vigitel chamam a atenção para 49% da população brasileira com excesso de peso, configurado no alto consumo de refrigerantes e alimentos gordurosos.

Comportamento alimentar

O Instituto Data Popular averiguou o perfil do brasileiro que se alimenta fora de casa. De 65,3% da população, a classe C representa o maior percentual (54,6%). Seguindo, as classes D e E (20,6%) e as classes A e B (19,4%). Almoço, lanche, jantar e café da manhã: nessa ordem, estão as refeições feitas pelos brasileiros.

No conjunto das refeições, o almoço tem a maior concentração de pessoas. O fato se deve à jornada de trabalho levando a essa opção em ambiente externo à moradia. Do universo da pesquisa, as classes D e E correspondem a 69,5%. As classes A e B (69,2%) e a C (68,1%) realizam refeições fora do domicílio.

Os lanches são a segunda refeição com maior percentual. As classes D e E representam 61,3%. As classes A e B, 60,7%; a classe C, 57,2%. O jantar, que aparece como opção de lazer para os entrevistados, tem nas classes A e B o maior percentual (56,4%), seguido pela C (28,7%) e D e E (23,1%). Para o café da manhã, as classes D e E têm o percentual de 16,8%. Na segunda posição, aparecem as classes A e B, com 16,1%; e, na terceira, a C, com 10,9%.

Crianças e adolescentes

As informações da pesquisa IBGE-MS fazem um alerta, ou seja, uma de cada três crianças com idade entre 5 e 9 anos estão acima do peso recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo MS. No caso dos adolescentes brasileiros, os índices identificam que, na faixa etária de 10 a 19 anos, houve um salto de 3,7% (1970) para 21,7% (2009) nos casos de sobrepeso e obesidade.

Foi identificado que população infantojuvenil consome pouco feijão, saladas e verduras. Os números afirmam que 50% dos adolescentes comem fora de casa e consomem salgados (industrializados, fritos ou assados), pizza, refrigerante e batata frita. Dos números, “o consumo de biscoitos recheados foi quatro vezes maior entre adolescentes. Já nos sanduíches, os adolescentes e jovens adultos consomem duas vezes mais que os adultos e idosos”, cita o documento.

A consciência da opção saudável

Os dados do IBGE/MS dão conta de um desafio nos hábitos alimentares saudáveis fora de casa. A conscientização centrada na boa educação alimentar deve ser uma atitude permanente, contribuindo para a qualidade de vida de todos nós.

Em relação às crianças e aos adolescentes, os profissionais de nutrição ligados à alimentação escolar têm papel fundamental ao desenvolver ações de conscientização pelos hábitos saudáveis junto aos estudantes, pais, trabalhadores da educação e população em geral.


* Jornalista, especialista em Marketing e Comunicação com Ênfase Temáticas Sociais, Cidadania e Direitos Humanos, Políticas Públicas, Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Socioambiental.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Ruas “esquecem” a dívida pública

Alessandro Faleiro Marques*

Nas ainda enigmáticas manifestações de junho, todo mundo reclamou de tudo e em todo lugar. Mas parece que um tema ficou de lado ou entrou na antipauta dos grandes conglomerados de comunicação: a dívida pública brasileira.

Maria Lucia Fattorelli, coordenadora da Auditoria Cidadã, contou à IHU On-Line, do Instituto Humanitas Unisinos, que quase metade do orçamento federal de 2013 era destinada ao pagamento da dívida pública brasileira. Isso representa, pelo menos oficialmente, 900 bilhões de reais para quitar juros e amortização. Para se ter ideia do estrago disso, 71,7 bilhões foram previstos para a educação, 87,7 bilhões para a saúde e 5 bilhões para a reforma agrária.

Assombrosamente, jamais essa dívida passou por auditoria, contrariando o artigo 26 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 (veja abaixo). E as aberrações seguem. O pagamento dessa carga tem prioridade sobre todos os outros investimentos, segundo Maria Lucia. Quando falta o dinheiro para os credores, logo ele é tirado das reservas destinadas aos serviços essenciais, como educação, segurança, saúde e transporte públicos. Nesse ponto, FHC, Lula e Dilma leem quase na mesma cartilha, como os antecessores, desde a ditadura.

Para os críticos ou defensores do “Bolsa Família”, uma porção de pólvora para animar o assunto. No orçamento de 2013, o que se gastaria no programa social durante todo o ano corresponde apenas a nove dias de encargos com a dívida. O programa pretendia atingir a 13,5 milhões de famílias, por outro lado, pouquíssimas instituições financeiras daqui e de fora, detentoras dos títulos, receberiam a gigantesca fatia do bolo. Maria Lucia Fattorelli, de forma precisa, chama a esse pagamento “bolsa rico”. O pior, nada garantiria o uso de todos os 22 bilhões previstos para o Bolsa Família, pois poderiam ser bloqueados para aplacar a ira dos credores.

Quanto os investimentos em educação, o orçamento de 2013 programou 71,7 bilhões de reais. Isso é 12 vezes menor do que o valor voltado para a dívida e 1,44% do PIB projetado para este ano. Já mandaram avisar: os sonhados 10% do PIB para nossos educadores e estudantes devem ser alcançados só em 2023. Mais gasolina no fogo: míseros 9,3% são destinados a estados e municípios, esferas mais próximas do povo. A maior parte dos gastos na educação é financiada justamente por essas esferas. Com esse modelo, é difícil crer num sólido desenvolvimento do Brasil.

Apenas 24,57% da dívida têm juros atrelados à taxa Selic, a outra parte tem índices ainda maiores e totalmente controlados pelos bancos e desfavoráveis a nós. Como sou das Letras e não dos números (mas não menos cidadão por isso), menciono que há uma série de outras manobras contábeis e retóricas, todas graves e denunciadas por Maria Lucia e por instituições dedicadas a essa causa. Eu quase ia esquecendo: na primeira metade de 2012, a dívida interna alcançou 2,74 trilhões de reais (trilhões!), e a externa, 416 bilhões de dólares.

O tema, como se vê, é amplo, mas fundamental para se direcionarem os debates. Protestar contra o neoliberalismo, o capitalismo, a corrupção, o governo é generalizado demais e pouco produtivo. Um verdadeiro néctar ideológico para os dominadores. Conforme progredirem os acontecimentos, é bom todos nós ajustarmos o foco e não nos esquecermos de que já nascemos devedores de alguma coisa, até de dinheiro.

O que diz o artigo 26 dos ADCT (ano de 1988)

Art. 26. No prazo de um ano a contar da promulgação da Constituição, o Congresso Nacional promoverá, através de Comissão mista, exame analítico e pericial dos atos e fatos geradores do endividamento externo brasileiro.
§ 1º - A Comissão terá a força legal de Comissão parlamentar de inquérito para os fins de requisição e convocação, e atuará com o auxílio do Tribunal de Contas da União.
§ 2º - Apurada irregularidade, o Congresso Nacional proporá ao Poder Executivo a declaração de nulidade do ato e encaminhará o processo ao Ministério Público Federal, que formalizará, no prazo de sessenta dias, a ação cabível.


Em outro artigo, mostrarei o resultado da corajosa auditoria na dívida do Equador. Surpreendente!


* Alessandro Faleiro Marques é especialista em Direito Público, professor e revisor de textos.


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A Veja, o MST e a minha formação

Eduardo Sabino*

Na semana passada, entre goladas de cerveja, alguém me falou sobre investimento em educação, e me lembrei de que o governo de São Paulo renovou milhares de assinaturas da revista Veja para escolas da rede estadual. Outro dia, na tevê, a Dilma falou sobre investimento na educação, e me lembrei de que o governo paulista renovou milhares de assinaturas da revista Veja para escolas públicas de São Paulo. Hoje, no Facebook, alguém falou sobre o danado do investimento, tão desgraçadamente necessário, e me veio à cabeça, mais uma vez, os exemplares da Veja chegando às escolas.

Há quem enxergue essa situação sem revolta e angústia. Afinal, a revista não entra sozinha na biblioteca escolar. Trata-se de uma opção, uma narrativa de mundo a mais. Compete ao professor, caso decida usá-la, fazer isso de modo crítico, multifacetado, produtivo.

E quando isso não ocorre?

Regresso dez anos no tempinho que já gastei por aqui e caio exatamente no final do ensino médio, na escola pública onde estudei. Penso no significado dessas revistas numa época não tão distante. Meu colégio comprava ou recebia gratuitamente exemplares, e a leitura era incentivada nos trabalhos letivos.

Recordo os cartazes com recortes de reportagens, os debates em sala de aula, a explanação dos professores. Tive bons educadores, que seguiam por caminhos amplos, mas, para muitos, a Veja era um recurso pedagógico dos mais confiáveis.

Havia casos de possessão. As ideias da revista Veja se personificavam no meu ex-professor de Geografia. Quem não crê na “teoria da bala mágica”, na qual a mensagem midiática atinge o cérebro do receptor como uma bala certeira, sem resistências, deve abrir ao menos uma exceção para esse cara. Levava a Veja pelos corredores como um crente com a Bíblia debaixo do braço. Contra a revista não se emitiam argumentos.

Detinha um jeito de super-homem, um poste jogando luz em formigas. Não aceitava ser interrompido. Perguntas eram postas pelo palestrante em dois blocos: o das coisas que ainda seriam comentadas e o das que já foram faladas e não receberam a devida atenção do aluno com dúvidas. “Pergunte aos seus colegas. Quem pode explicar para ele?”. E dá-lhe papagaios com a mão erguida.

Discussões? Não havia espaço para isso. Se o questionamento persistisse, ele oferecia o giz ao aluno rebelde, colocava o posto à disposição e acabava logo com a teimosia do infrator. “Quem é o professor aqui?” Se brotasse uma conversa paralela, nem que fosse sobre o conteúdo da aula, ele se sentava para folhear a famigerada revista. Seguia lento e tranquilo, até estarmos todos em silêncio. O silêncio das folhas em branco.

Sobre o MST, aprendemos a cartilha da Veja. O problema do Movimento dos Sem-Terra passava longe da reforma agrária (e da falta dela), da concentração de terras nas mãos de latifundiários, da Constituição da República, na qual o direito à moradia e a sobrevivência está à frente do direito à propriedade.

O problema do MST era o próprio MST. Disputas internas, vandalismo nos protestos e “oportunismos típicos do jeitinho brasileiro”. Para entendermos melhor, o professor X desenhava no quadro os sem-terra como bonequinhos com enxadas nas mãos. “Vamos supor que esse fulaninho aqui ganhou o seu terreno. Ele se dá por satisfeito? Não, ele volta ao movimento.” Não ocorria jamais ao papagaio da Veja o quanto o movimento se enfraqueceria se os “oportunistas” o abandonassem ao receberem seus benefícios.

Nenhum fenômeno sobrenatural acontecia para mostrar como aquele cara estava errado. A aula era uma rua sem saída. Saíamos dela mais ignorantes e preconceituosos. Como questionar? Havia uma relação de confiança com o texto profissional. Livros, jornais e revistas eram apresentados como suportes da verdade. Se estava escrito, estava certo.   

A vida também pode ser um processo de desintoxicação mental. E tive a sorte de conhecer amigos, livros e professores que me ajudaram a enxergar as coisas de forma menos superficial.

Fechados os parênteses da experiência pessoal, digo, sem medo: não chego a dar pulos de alegria quando falam em investimento educacional. Quase sempre se referem à educação como essa máquina de tornear peças para o mercado e fazer as mercadorias circularem. A educação que forma trabalhadores, consumidores, e às vezes deixa escapar, como defeito de fábrica, um sujeito pensante. Uma educação para o mercado, fechada para o restante do mundo, longe de contribuir para a emancipação do homem.

Dito isso, desejo melhor sorte aos moleques das milhares de escolas abastecidas com a revista Veja. Que a internet e seus compartilhamentos de boas ideias ajudem vocês a ridicularizem um possível professor de Geografia alienado e metido a besta. Que o exemplar da Veja, novinho, recém-chegado na biblioteca da escola, permaneça no plástico, isolado em cofre de chumbo, e não contamine ninguém.


* Escritor e jornalista.



terça-feira, 10 de setembro de 2013

“Os menino travesso tá jogano bola!”

Alessandro Faleiro Marques*

O título deste texto fala de um ou mais “menino”? Se você disse que ele se refere a pelo menos dois moleques, você está correto. Agora, tente responder à próxima pergunta: em qual idioma foi escrito o título? Se você disse português (vale brasileiro), acertou de novo. Sim, a frase no título mostra uma manifestação oral do português brasileiro. Mais uma surpresa: ela está dentro dos modelos de uma gramática. Isso mesmo! E você pode ficar tranquilo (talvez) porque ainda estou em meu juízo.

Para a tristeza de alguns poderosos, a gramática não é apenas aquele livro pesado, cheio de regras, exceções e notas de rodapé. Existe em todos nós uma gramática interna, às vezes muito diversa daquela que somos obrigados a comprar e a venerar nas aulas de Língua Portuguesa por aí. E o mais chocante (menos para os cientistas da linguagem): essa estrutura “genética” costuma ser mais bem bolada e prática do que aquelas listas de normas estudadas por nós somente porque serão cobradas em provas; vide os abstratos regulamentos de colocação pronominal, alienígenas ao uso brasileiro.

Na área linguística, a sabedoria popular tem muito valor, como deveria ser em todas as outras. Note que, na frase, o falante usou o plural apenas no artigo “os”. Isso bastou para toda a ideia se remeter facilmente à existência de mais de um agente na oração. No português formal, imprecisamente chamado de “português certo”, a estrutura seria bem diferente: “Os meninos travessos estão jogando bola!”. Se, na primeira, apenas uma palavra foi para o plural, na segunda, houve concordância em quatro delas. Nem sempre o mais complicado é o mais avançado. Que o digam os mecânicos.

Em uma língua, a lei do menor esforço não é necessariamente a da preguiça. O fenômeno é levado muito a sério e, com outros elementos, também explica algumas alterações em “jogano”, no lugar do gerúndio formal “jogando”, e “tá”, em vez de “está” (ou “estão”, na conjugação formal). Isso ocorre no desenvolvimento de nosso idioma: o latino “horologĭum” virou “relógio”, e ninguém questiona a forma deste último. Como se esquecer aqui do clássico “Vossa Mercê” para “você”?

Um mero “certo ou errado” como argumento numa área imprecisa e bela como a da língua reduz muito as possibilidades de ampliar a reflexão dessa ciência. Mais do que corrigir o outro, o ideal é estudar o motivo de alguém falar deste e não daquele modo. Há muitas razões. O certo mesmo é buscar entender o fenômeno. Posso lhe garantir: há um tesouro a ser descoberto, expondo nosso contexto atual, o nosso passado e até como será com nossos descendentes. A chave para esse baú é o não preconceito e o desejo de se ter mais sabedoria do que só inteligência.

Em outra oportunidade, refletirei um pouco sobre a ideia de “português culto”.


* Professor, redator e revisor de textos.



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O que tenho a declarar sobre esse tal de "tablet"

Não estou nem aí para quem não gostar, mas digo algumas de minhas opiniões sobre esse tal de tablet (tabuleta, em português), iPad (e similares):

- extinguirá a guerra de bolinhas de papel nas salas de aula;
- não nos permite rasgar as páginas chatas, profanas ou imbecis e jogá-las solenemente no lixo;
- não nos possibilita usá-lo em casos de emergência gastrointestinal;
- tem um "P" maiúsculo no meio da palavra (modismo ortográfico totalmente ridículo, como a maioria dos modismos);
- abolirá os aviões, os chapéus e os barquinhos de papel;
- faz os adeptos acreditarem cega e simploriamente que o meio é mais importante que o conteúdo;
- gostaria de ver como seriam as artes em dobradura ("origami") feitas de páginas virtuais;
- não nos permite usá-lo para equilibrar mesas;
- se cair no chão, já era;
- exterminará os marcadores de página artisticamente trabalhados e dados como lembrancinha;
- faz muitos medíocres acreditarem que sabem tudo de tecnologia;
- leva alguns mais medíocres ainda a cultuarem o tal fundador da Apple;
- desperta a "religiosidade" de idiotas que acendem velas virtuais pela alma do mesmo tal fundador enquanto eles "orgulhosamente" desprezam a cultura religiosa em si;
- abolirá aqueles bonequinhos de mãos dadas, que fazemos para aplacar a ira de meninos pirracentos;
- não tem cheiro de livro novo (cujo valor só os bons leitores conhecem);
- enquanto se lê o tal "e-book", não se tem a sensação de que o livro está chegando ao fim;
- um conteúdo virtual sem neurônios reais que o processem vale muito pouco;
- condenado a virar peça de museu em poucos anos (quer apostar?);
- não faltam pessoas e governos que saem distribuindo o aparelho para educadores, mas não se preocupam em valorizá-los como seres humanos e profissionais (isso vale também para os salários);
- desperta o ridículo e ingênuo deslumbramento dos adultos; enquanto isso, crianças e adolescentes mais atentos veem o treco como algo mais normal do mundo e tiram sarro dos admirados;
- documentos antiquíssimos impressos em papel, couro, pedra e barro existem até hoje, quero ver isso sucederá com as tais maquininhas.

Para evitar ambiguidades, se alguém quiser me dar um desses trecos, eu aceitarei de bom grado. Arrumarei alguma função para ele.

Quem quiser, pode completar. De minha parte, tenho-o dito.



sábado, 9 de outubro de 2010

Ouvi o canto dos antigos

Alessandro Faleiro Marques*

Para protesto de meus amigos, que ficaram semiprivados de minha audiência nas vitais microassembleias etílicas de sexta-feira à noite, deixei-me ser enfeitiçado pelo canto da sereia linguística. Meus ouvidos encheram-se de palavras sonoras como declinação, acusativo, particípio futuro, gerundivo e muitas outras. E, impelido pela genética de minhas células curiosas, já estou de pé quase todo sábado, bem cedo. Com ou sem gosto de cabo de guarda-chuva na boca, coloco minha maletinha debaixo do braço e vou para o curso de latim.

Já estou quase no fim, e isso me deixa um pouco mais atrevido para opinar sobre a tal língua-mãe. A primeira coisa é questionar a simplória ideia de o idioma de Virgílio ter dado origem ao português. Não é bem assim. Entre outros “empréstimos”, os romanos pegaram muito da gramática dos gregos, cuja brilhante cultura nem a poeira das sandálias dos centuriões conseguiu ofuscar. Quem é vítima desse clichê parece ter se esquecido da vasta contribuição indígena, africana, árabe e anglo-saxônica, por exemplo, ao nosso léxico. Seja como for, admito: a cada aula, fico mais impressionado com a nossa herança do Lácio.

Apesar de ser loucura para os de fora, considero esse estudo um bom programa. Passo um bom tempo tentando descobrir e reordenar vocábulos metamorfoseados conforme sua função na frase. Posso garantir, é muito melhor do que palavra cruzada. Cérebro funcionando, dizem, ajuda a combater doenças como o mal de Alzheimer, por isso o latim é, no mínimo, um remédio anticaduquice.

Os termos latinos são uma mescla de exótico e sagrado, selvagem e belo. Enquanto as palavras se deixam amansar para nosso idioma, sinto uma entorpecente sensação de crescimento, de respeito, de um refinado “sei-que-nada-sei”.

Outro encanto foi apreciar a Vulgata, a tradução do texto bíblico para o latim conduzida por São Jerônimo. Até onde eu vi, o método é um exemplo para os escritores de hoje. O santo e doutor da Igreja procurou divulgar, de modo muito claro, uma mensagem profunda. Tudo sem firulas, sem eruditismos. Para ele, quanto mais gente conhecesse a Boa-nova, melhor. Também me impressionei com a sabedoria das fábulas de Fedro, uma legítima coletânea de “causos” atualizáveis no dia a dia.

O idioma em si é um espetáculo à parte. Em poucas palavras, aquele povo dava o recado. O latim pede raciocínio, paciência e uma mesa enorme, para que se abram livros e livros para consulta simultânea, uma forma de fugir das traquinagens dos vários falsos cognatos.

Com esse estudo, caiu, pelo menos para mim, mais um mito. O fato de estudar latim não faz ninguém entender o português, até porque nós, falantes nativos, já sabemos este. Ao contrário, conhecer um pouco da nossa gramática me ajudou muito a encarar as aulas da manhã de sábado. Os professores também me surpreenderam. São de bem com a vida, jovens e transmitem segurança. Bem diferente de alguns de outrora, ranzinzas e adoradores do antigo decoreba.

Minha decepção foi ver o descaso que as editoras brasileiras têm com o idioma de Ovídio. Uma delas, entre as menos acomodadas, simplesmente publicou um fac-símile de um dicionário da década de 1920. Em caminho inverso a outros países, como os da Europa, há pouca coisa nova por aqui. Por isso, vida longa aos sebos! Outra chatice foi ter de justificar para alguns o motivo de meu estudo. Ora, pois sou das letras e fui escolhido por elas! E o papo de língua morta? Vejo o latim, junto com outros sistemas antigos, sobreviver em nossas palavras e no cotidiano de milhões de pessoas em todo o mundo.

Hoje existe uma estrutura bem montada para não aprendermos com os mais velhos. A principal lição do curso, contudo, é o retorno ao antigo costume de ouvir o outro, mesmo que este tenha vivido dezenas de séculos atrás. Que a sereia continue a cantar.


 
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Campanha contra a intoxicação digital

Alessandro Faleiro Marques*

Como educador, cada vez mais me convenço de que existe o “emburrecimento”, ou seja, o lado oposto da aprendizagem, do crescer não só acadêmico, mas de espírito e sabedoria. Obviamente, nos meus tempos de faculdade, nenhum dos meus mestres ousou tocar no assunto do processo da desinteligência. Isso nos desanimaria? Seria um segredo só para os já iniciados?

Uma das causas do mal é a ingenuidade, o deslumbre débil diante de certas inovações. Outro dia, li um artigo dizendo que adiantou pouquíssimo encher de computadores as escolas. Fiquei impressionado com o fato de isso ter aumentado os casos de déficit de atenção. Em resumo, o projeto de abarrotar de aparelhos as salas de aula só serviu para dar mote para propaganda governamental, atrair pais e alunos (chamados de clientes pelas grandes e pequenas redes de colégios) e para encher a cabeça de crianças e adolescentes de muita, muita toxina digital. São tantas informações que os neurônios da moçada estão dando curto-circuito. O intento, de princípio bom, ainda saciou o desejo de orgasmo pedagógico de alguns mais “empolgados”, achando que a simples eletronização didática colocaria a escola e os jovens “ligados ao mundo e à modernidade”.

Apesar do encantamento, houve pouco ou nenhum preparo dos educadores para melhor aproveitarem o recurso, sobretudo para o uso da internet. Os jovens também não foram preparados. Adolescentes, crianças e adultos ficaram apenas boquiabertos com a tecnologia e, estéreis, entregaram-se a ela. Valorizou-se muito o meio, não o fim.

O excesso de dados entope a cabeça das pessoas. É um fenômeno comum na Pós-modernidade, tempo marcado pela rapidez, mosaiquices e descarte fácil de coisas, ideias e pessoas. Cabeça entupida é mundo caótico, não contemplativo... existindo só porque nasceu.

Em vez de só reclamar, ouso sugerir uma “Campanha de Desintoxicação Digital”. Selecione suas leituras, seja frio. Descarte o inútil, veja o essencial. Faça o jejum cibernético e veja se realmente é essencial para sua vida a avalanche de textos, piadas, álbuns, fofocas, gráficos e infográficos.

Sejamos seletivos, questionadores e preocupemo-nos em colocar no devido lugar o útil mundo digital. Diga sim ao olho no olho, ao inteligenciamento, às luzes. Desintoxique-se!


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O palavrão do livro didático

Alessandro Faleiro Marques*

Os adeptos dos orgasmos pedagógicos que me desculpem, mas uma notícia na tevê me deixou com um nó nas entranhas. Um livro didático distribuído pelo governo de Minas Gerais para alunos do ensino fundamental trazia um texto cheio de palavrões, termos chulos, tabuísmos e tudo mais que o eufemismo tenta aliviar. A justificativa: os personagens precisariam disso para poder criticar uma situação excludente. Confesso: tive de rever a notícia para acreditar. E o pior, a polêmica se deu também em escolas públicas de outros estados, em obras aprovadas pelas respectivas secretarias de Educação.

O mais bizarro disso, deixando-me boquiaberto, é alguns educadores aprovarem a ideia. Felizmente foi a minoria. Nenhum governante pediu minha palavra, apenas cobrou de mim os impostos para financiar essa aberração, mas ressalto: é um absurdo! Sou um cafona assumido em algumas questões educacionais. Sou dos bons tempos da escola ensinando coisas boas. Os educadores andavam bem arrumados (mesmo ganhando mal), emanavam sabedoria e se davam respeito. Aprendi muita coisa com o exemplo deles. Sou testemunha de que o ensino não verbal também é importante num ambiente nobre como eram as escolas públicas onde estudei.

Para mim, não serve a desculpa de ser a vida fora da escola cheia de mazelas e de fatos pouco publicáveis. Disseram que os alunos devem aprender da realidade. Outro disparate! Se fosse assim, por que estudar sobre a neve (clássico exemplo) ou sobre o Saara? Não pertencem ao nosso cotidiano. Não me lembro de ter trocado tiros com meus colegas para aprender sobre as guerras. Senhores educadores, voltemos às origens (as boas, é claro). Esqueçamos um pouco o governo e algumas teorias só teóricas. Sejamos verdadeiramente mestres por dentro e por fora.

Quanto ao livro esquisito, gostaria de solidarizar-me com pais, educadores e alunos (sim, eles também) que desaprovaram a asneira. Ânimo! Vamos continuar fazendo tudo para ver se essa geração de boné na cabeça e bermudão tenha o mínimo de valores. Não deixemos de lado a escola, apoiemos as boas iniciativas dela e continuemos a cobrar dos nossos governantes mais investimentos para a nossa juventude.


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Novo Acordo Ortográfico: mais polêmica depois do VOLP


*Alessandro Faleiro Marques

Já começa a circular a quinta edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), elaborado pelos “imortais” da Academia Brasileira de Letras (ABL). A notícia é excelente, já que poderá pôr um ponto final em várias discussões entre profissionais e amantes da língua de Camões, Machado de Assis, Fernando Pessoa e Guimarães Rosa (deste também!). Note: poderá! Ao se fazer um rápido confronto entre os dicionários e manuais lançados recentemente, pode-se ver que foi perdido muito do esforço dos autores que tentaram desbravar o Novo Acordo Ortográfico .

Como quase toda grande mudança, há tumulto mesmo, mas, desta vez, as coisas estão mais tenebrosas. Diferente dos novos dicionários, “pé de moleque” não tem mais hífen para a ABL, tanto faz ser o delicioso doce quanto a parte do corpo de um menino travesso. O mesmo aconteceu com “dia a dia”, expressão que será usada sem hífen no sentido de cotidiano e no de sequência de dias.

Diante dessas e de muitíssimas outras “novidades”, ficam várias dúvidas e umas poucas certezas. Entre os questionamentos, pode-se perguntar: se o Novo Acordo estava elaborado há tanto tempo, desde a década de 1990 no mínimo, por que a ABL esperou que ele entrasse em vigor para somente depois lançar o VOLP? Por que não o publicou com a mesma voracidade que os dicionaristas? Será que faltou a alguns “imortais” a sensibilidade de ver que a maioria dos falantes está no mundo de mortais, em que a agilidade é um valor?

A verdade comprovável até agora é que os mais prejudicados (pra variar) foram os consumidores, que correram para manter-se atualizados com a nova ortografia e compraram gramáticas, manuais, dicionários e outras publicações. Os editores (exceto os do VOLP) também foram novamente penalizados. Depois de refazer os livros, agora terão de readaptar as obras ao novo vocabulário da ABL. Nada mais inconveniente nestes tempos da anunciadíssima crise.

As polêmicas não ficam por aí. Envolvem também política. Portugal, que parece não estar com tanta pressa em alterar sua ortografia, mesmo tendo assinado o Novo Acordo, não gostou muito da iniciativa brasileira. Se, por acaso, os “imortais” do país de Eça de Queirós lançarem o próprio Vocabulário Ortográfico (o que não se pode duvidar), estará decretado o insucesso dos objetivos principais da atualização, que seriam tentar padronizar a escrita e fortalecer a língua portuguesa no cenário mundial. Seguindo a tendência, os lusófonos da África, seguindo ou Portugal, ou Brasil, ou a própria autodeterminação linguística, ajudariam a dividir o reino, enfraquecendo-o. Será que esse problema foi discutido durante os chás dos acadêmicos?

Aqui uma ousadia: aos “imortais” vai um agradecimento e uma súplica. O muito obrigado vai pela dedicação do novo VOLP “aos que usam a língua portuguesa como bem comum” e pelo convite “a colaborar com achegas, sugestões, críticas e correções”, tudo para o aperfeiçoamento da obra. Caros acadêmicos, realmente essa obra é grandiosa e será útil. Agora, por Deus, este o verdadeiro imortal, não corrijam mais nada.


*Professor, revisor de textos e redator


Texto originalmente publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com.)