Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O presépio é feio


O presépio em si é feio! Feio mesmo! Uma criança que nasce em um cocho, no meio dos animais, num curral! Pai e mãe excluídos, sem plano de saúde, sem teto, sem agasalho e contando apenas com o bafo dos bichos para se aquecerem. As primeiras visitas: um bando de desconhecidos, os então malvistos pastores.

Aos olhos da fé, contudo, o presépio é lindo. Mas, como a legítima espiritualidade, é comprometedor. Após o parto, a mãe envolve o recém-nascido em faixas. O amor cabe em qualquer lugar. Para a decepção dos caçadores cegos de prosperidade, Jesus menino vem pobre, paupérrimo, humilhado, e morre como tal.

É cena desconcertante para quem acha que os sem-tudo são todos vagabundos, e pronto. “E não havia lugar para eles.” Um incômodo para quem, sazonalmente comovido diante do arranjo moldurado por musgos e festões, um dia acaba descobrindo que ainda há crianças nascendo em comedouros de animais, em estábulos, em corredores frios, na rua e em barracos de lona e bambu. Porque não há lugar para eles.

A sagrada estrebaria é um inconveniente aos emocionados com o menino no cocho enfeitado e, ao mesmo tempo, odiosos a quem luta pelos pequenos de hoje não nascerem assim.

Na beleza da fé, um santo, encorajador e feliz Natal!

terça-feira, 15 de julho de 2014

Depois do chocolate, perguntas


Perdoe minha ignorância, mas surgiram algumas perguntas, principalmente depois da sapatada que o Brasil tomou da Alemanha, no dia 8 de julho. Alguém, por favor, dê-me uma luz... Preciso de almas inteligentes que me tirem dessas trevas.

- O Brasil é uma tragédia no futebol e ficou entre os quatro melhores do mundo?
- Desde o "dia seguinte", as manifestações antigoverno voltaram a ser organizadas por quê? Antes tudo estava bem?
- Uma equipe que planeja, não gosta de improvisos tontos e disciplinada teria de perder para outra que é desorganizada e cheia de "gambiarras"?
- É verdade que jogar fora de casa e com a torcida contra é um fator que pode influenciar negativamente o desempenho de um time?
- O sujeito que vive gastando dinheiro na "Nova Guarapari" agora virou inimigo dos “hermanos”?
- Quem virou inimigo dos “hermanos” torcerá para o carrasco do próprio time?
- Os classe-média-disneys vaiaram também o hino da Alemanha, como fizeram com o Chile?
- Os negros da torcida brasileira ainda estão escondidos na ala VIP dos estádios e não saíram ou somos nórdicos mesmo?
- Por que as camisas amarelas não apareceram direito no jogo de Argentina e Holanda? O "povo" não era brasileiro com muito orgulho e com muito amor? (ah, acho que sei a resposta para esta... é porque não eram brasileiros, mas nórdicos mesmo...).
- Por que ainda não colocaram na Dilma e nos "petralhas" a culpa pela goleada?
- Por que nem mesmo o roupeiro ou gandula do Cruzeiro, campeão nacional de 2013 (conquistado, aliás, com folga) e líder do dificílimo campeonato no primeiro semestre de 2014, foi convocado para a Seleção? Será que os jogadores dessa equipe eram tão ruins assim ou a CBF quis "inovar"?
- Por que ninguém mais fala do penta, ganho em 2002, sob a liderança de Felipão? No futebol, como na política e nas artes, a memória também é curta?
- Por que estou falando da Seleção sendo que o meu time é o Guarani de Divinóps?

Até a outra tamanc... quero dizer, o outro jogo da Seleção.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Uma relíquia na torre


Alessandro Faleiro Marques

Nestes cem anos, a Matriz de Nossa Senhora do Carmo tem sido um cenário privilegiado onde Deus e homens se escutam. As largas paredes do imponente templo de Carmo do Cajuru, na região Centro-Oeste de Minas Gerais, são testemunhas de quantos ali se fizeram santos por meio do Evangelho ecoado pelas vozes de presbíteros, da rústica doçura do coral litúrgico, do perfume solene do incenso e da luz devota das velas.

Poucos, porém, conhecem um segredo marcado na torre. Em um canto privado da luz do sol e dos olhares piedosos dos cajuruenses, há uma relíquia de um desses santos formados em nossa paróquia-mãe. Uma lembrança deixada em 1980 por um humilde jovem está grafada na parede interna voltada para o sudoeste, na altura do telhado da nave central. Nesse lugar, lê-se “Gerson”, simplesmente.

Algumas vezes, tive o privilégio de subir pela torre, chegar perto dos sinos e contemplar, do alto, a vista da cidade. Maior honra, contudo, foi ver a lembrança deixada por aquele jovem operário, ajudante de meu pai e amigo de toda a minha família. Uma espécie de pequeno oratório nosso dentro da igreja centenária.

Esse rapaz, há muito “canonizado” por nós, trabalhou como servente de pintor na reforma da matriz, promovida pelo cônego João Parreiras Villaça bem no final da década de 1970. Era alegre, de voz suave, corpo magro, pele e cabelos claros.

Uma tragédia, contudo, tornou nublado um dia de folga. Uma arma de chumbinhos, disparada acidentalmente ao cair no chão, levou o sofrimento ao moço, na época, com 17 anos. Ele lutou pela vida durante muitos dias no Hospital São João de Deus, em Divinópolis. Jesus o quis presente na reforma do templo físico e também na sua própria Paixão divina. Gerson não carregava mais escadas ou latas de tinta, mas o próprio peso da Cruz. Num úmido início de noite de outubro de 1981, com intensa agonia, ele nos deixou. Tudo estava consumado.

A agonia de Gerson Santil, filho de família bondosa do Bairro Bonfim, deixou muito comovidos a nós e ao próprio cônego João. Lembro-me do célebre pároco presidindo a missa de corpo presente dentro daquele templo que o trabalhador pouco antes ajudara a embelezar. Um homem canonizado pelo povo saudava outro santo do próprio povo. Uma história grandiosa, mas silenciosa, como são muitos dos mistérios de Deus. Hoje, lá na torre, na singeleza de umas pinceladas, está o nome de um anjo, profeticamente representando outros milhares de anônimos que, rodeados por essas paredes, salvaram-se para Deus.

Um dia, algum desavisado pintor apagará a inscrição, até há pouco respeitada pelos colegas que participaram das reformas nas décadas seguintes. Outra profecia de um evangelho do cotidiano: as coisas deste mundo passam, mas não o nome dos que vivem em algum lugar do coração de Cristo, o Templo Vivo.

* Dedico esse texto à família e amigos de Gerson, e aos trabalhadores de Carmo do Cajuru, meus conterrâneos.



Compus esse texto para o concurso do centenário da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo, celebrado no dia 15 de setembro de 2012, em Carmo do Cajuru-MG. Nesse templo, eu e muitos de meus parentes atuais e ancestrais fomos batizados. Ouvi dizer que fui desclassificado porque eu falava somente da torre e não do templo (rsrsrs). Acho que, com o dedo errado, mostrei a Lua. Seja como for, viva minha terra!


sábado, 5 de março de 2011

Tiririca, o Sério

Alessandro Faleiro Marques*

Talvez pela costumeira falta de foco, incompetência ou por “ordens superiores”, a imprensa nacional e até a estrangeira estão apontando excessivamente os holofotes para o deputado federal que mais ganhou votos no Brasil, o Dr. Francisco Everardo Oliveira Silva, o palhaço Tiririca. Nos últimos dias, as jocosidades diárias ganharam fôlego depois de o Dr. Tiririca estrear na Comissão de Educação e Cultura da Câmara. Logo ele, dizem alguns, suspeito de ser analfabeto e ter de passar por um exame para comprovar o conhecimento da língua que ele e nós usamos desde pequeninos.

A Carta de 1988 reforçou o direito de cidadãos se candidatarem a cargos eletivos, respeitados alguns requisitos. Jornalistas, comentaristas e pseudointelectuais estão com as lentes viradas para um único lado. Doutor Tiririca, sustentado pela norma legal e moral, apenas exerceu seu direito. Candidatou-se e foi votado. A maioria de nós tem essa prerrogativa. Por parte desse artista, não houve coação de eleitores, abuso de poderes econômico e político, sequer tinha a ficha suja, segundo os novos modelos (pelo menos até agora).

Mais do que fazer chacota do parlamentar, os palpiteiros, profissionais ou não, deveriam começar a analisar quem o mandou para Brasília: as centenas de milhares de eleitores paulistas, muitos certamente nascidos nos mais diversos cantos deste País. Gente que desconhece a importância do processo democrático e vota por votar. Pela democracia é que estamos assistindo ao sangue jorrar em várias partes do mundo, em especial no Oriente Médio e Norte da África. Brincar com ela é zombar, e isso não tem graça.

Sua Excelência disse que defenderá os direitos dos palhaços e apoiará a causa dos circos. Lembro-me de que o caos em que se encontravam esses locais de diversão foi tema até de um Globo Repórter. Alguém tem dúvidas de que o espetáculo circense é uma louvável face de nossa cultura?

Questiono os motivos de não haver o mesmo rigor com outros políticos, inclusive os escolhidos em outros tempos. Os palácios por este Brasil estão cheios de “artistas”. De dono de castelo encantado a driblador, dos que se acham deuses, grandes dançarinos ou cantores aos sonhadores (talvez estes sejam até necessários), dos mágicos aos vilões. Numa democracia, deve-se lembrar de quem foi votado e de quem votou, e ambos devem cobrar e serem cobrados.

Doutor Tiririca, à Vossa Excelência os meus respeitos.


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O cavalo que era burro

Alessandro Faleiro Marques*

Aquele quadrúpede ali, de boca requebrante a moer o capim. Quem o vê nem imagina o que o bicho já fez pelo bairro, talvez pela cidade. Não sabe, mas hoje é o último expediente dele e do dono no serviço de entrega de uma loja de materiais de construção. Enfim saiu a aposentadoria. Não sabe.

Sempre pronto, do seu jeito, acha que ainda hoje carregará mais algum peso no veículo atrelado ao dorso. Meio cansado, meio disponível, rói o milho que acaba de ganhar do velho homem, com quem trabalhou uns bons anos. Parece estranhar o quitute raro, afinal não estava muito acostumado com algo além do capim cortado nos cada vez mais raros lotes vagos pelo caminho.

Inverbalizado, sente que o dono está estranho, falando mais baixo, bem diferente dos roucos gritos pré-chicote, outrora mais vigorosos. Ganha um inédito afago de dois homens, os mesmos de sempre, que costumam colocar na carroça aquilo que ele deve carregar. Também, hoje, conversam leve.

O mamífero orelhudo, meio censurado pelas viseiras, viu as ruas dali se alterarem. Aos poucos, foram sumindo os atoleiros e alisando-se o piso. O antigo silêncio, algumas vezes quebrado por algum moleque, cantar de galo ou martelar, foi dando lugar ao ruir de motores, depois às sirenes e até aos estalares estranhos aos seus ouvidos. Estes últimos, notava sem muita pretensão, eram quase sempre seguidos de gritos, de mais roncos mecânicos e, logo em seguida, de apitos de emergência. Nunca escondeu de ninguém ser os estampidos cheirando a enxofre os mais a incomodá-lo, sendo responsáveis pelos quase acidentes e açoites mais nervosos do velho que agora o dá outra espiga.

Ele não sabe, mas deveria ganhar uma estátua ou pelo menos uma placa lá na pracinha, cuja grama já lhe foi mais abundante. É o último dia. Ninguém reconhece, mas o cavalo é quem ajudou a construir a comunidade. As viseiras o impedem de entender isso. Coitado!


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

domingo, 12 de dezembro de 2010

Dedos voltados para o céu

Alessandro Faleiro Marques*

(Dedico este texto a Márcio Almeida, grande teólogo, a quem devo algumas palavras há muito tempo.)

As residências já piscam para as celebrações de Natal. Obviamente, as lojas acenderam as estéreis luzes há muito tempo, pouco se importando com o sábio ritmo litúrgico desta época (aliás, nem devem saber o que é isso). Alguns entre tantos também arrumam a casa do próprio espírito. Buscam festejar, da forma mais digna possível, o nascimento de Jesus.

Neste ano, minha reflexão se baseia numa foto publicada num noticiário da internet. Uma imagem extremamente chocante para mim, na qual um muçulmano reza de dedos voltados para o céu. Nada de mais, não fosse a mancha amarela viscosa no rosto do homem. A mácula foi causada por ovos lançados pela dureza de alguns “cristãos” ortodoxos de Atenas. Os agressores acusam os filhos de Alá, a maioria imigrantes, de causarem distúrbios na área. Os agredidos denunciam preconceito e afirmam faltar a eles um lugar digno e seguro para o culto, sendo obrigados a se reunir numa praça.

Creio que eu, um frágil seguidor de Cristo, teria dificuldades profundas de orar num ambiente desses. Mas o moço está de olhos entreabertos. De boca silenciosa e rosto humilde, louva o Deus de Abraão, nosso pai comum. A cena me deixa inquieto até hoje. O maior sentimento é de profunda vergonha por meus patrícios espirituais terem violado um momento tão importante para os discípulos de Maomé. O outro é de penitência, de reconhecimento das limitações de minha veia transcendente. Nunca conseguiria concentrar-me, nem mesmo em pose para a foto. Por último, de compaixão por islâmicos, cristão, umbandistas, judeus, budistas e outras pessoas que ainda sofrem ataques por causa de sua crença, seja na Grécia, na Palestina, no Iraque, no Brasil, na China ou em qualquer lugar.

Aos heróis da verdadeira fé, seja ela qual for, minhas homenagens neste Natal. Rezarei por quem faz da religião um caminho mais curto de chegar ao Deus, autor da vida, por aqueles que pouco se importam com as “tendências atuais” e, assim, multiplicam a herança de paz e justiça de legítimas assembleias orantes. Seja nosso louvor o “escândalo” não só no tempo de pisca-pisca, mas por todo o ano. E que todos tenham um lugar onde fazer isso.


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

sábado, 9 de outubro de 2010

Ouvi o canto dos antigos

Alessandro Faleiro Marques*

Para protesto de meus amigos, que ficaram semiprivados de minha audiência nas vitais microassembleias etílicas de sexta-feira à noite, deixei-me ser enfeitiçado pelo canto da sereia linguística. Meus ouvidos encheram-se de palavras sonoras como declinação, acusativo, particípio futuro, gerundivo e muitas outras. E, impelido pela genética de minhas células curiosas, já estou de pé quase todo sábado, bem cedo. Com ou sem gosto de cabo de guarda-chuva na boca, coloco minha maletinha debaixo do braço e vou para o curso de latim.

Já estou quase no fim, e isso me deixa um pouco mais atrevido para opinar sobre a tal língua-mãe. A primeira coisa é questionar a simplória ideia de o idioma de Virgílio ter dado origem ao português. Não é bem assim. Entre outros “empréstimos”, os romanos pegaram muito da gramática dos gregos, cuja brilhante cultura nem a poeira das sandálias dos centuriões conseguiu ofuscar. Quem é vítima desse clichê parece ter se esquecido da vasta contribuição indígena, africana, árabe e anglo-saxônica, por exemplo, ao nosso léxico. Seja como for, admito: a cada aula, fico mais impressionado com a nossa herança do Lácio.

Apesar de ser loucura para os de fora, considero esse estudo um bom programa. Passo um bom tempo tentando descobrir e reordenar vocábulos metamorfoseados conforme sua função na frase. Posso garantir, é muito melhor do que palavra cruzada. Cérebro funcionando, dizem, ajuda a combater doenças como o mal de Alzheimer, por isso o latim é, no mínimo, um remédio anticaduquice.

Os termos latinos são uma mescla de exótico e sagrado, selvagem e belo. Enquanto as palavras se deixam amansar para nosso idioma, sinto uma entorpecente sensação de crescimento, de respeito, de um refinado “sei-que-nada-sei”.

Outro encanto foi apreciar a Vulgata, a tradução do texto bíblico para o latim conduzida por São Jerônimo. Até onde eu vi, o método é um exemplo para os escritores de hoje. O santo e doutor da Igreja procurou divulgar, de modo muito claro, uma mensagem profunda. Tudo sem firulas, sem eruditismos. Para ele, quanto mais gente conhecesse a Boa-nova, melhor. Também me impressionei com a sabedoria das fábulas de Fedro, uma legítima coletânea de “causos” atualizáveis no dia a dia.

O idioma em si é um espetáculo à parte. Em poucas palavras, aquele povo dava o recado. O latim pede raciocínio, paciência e uma mesa enorme, para que se abram livros e livros para consulta simultânea, uma forma de fugir das traquinagens dos vários falsos cognatos.

Com esse estudo, caiu, pelo menos para mim, mais um mito. O fato de estudar latim não faz ninguém entender o português, até porque nós, falantes nativos, já sabemos este. Ao contrário, conhecer um pouco da nossa gramática me ajudou muito a encarar as aulas da manhã de sábado. Os professores também me surpreenderam. São de bem com a vida, jovens e transmitem segurança. Bem diferente de alguns de outrora, ranzinzas e adoradores do antigo decoreba.

Minha decepção foi ver o descaso que as editoras brasileiras têm com o idioma de Ovídio. Uma delas, entre as menos acomodadas, simplesmente publicou um fac-símile de um dicionário da década de 1920. Em caminho inverso a outros países, como os da Europa, há pouca coisa nova por aqui. Por isso, vida longa aos sebos! Outra chatice foi ter de justificar para alguns o motivo de meu estudo. Ora, pois sou das letras e fui escolhido por elas! E o papo de língua morta? Vejo o latim, junto com outros sistemas antigos, sobreviver em nossas palavras e no cotidiano de milhões de pessoas em todo o mundo.

Hoje existe uma estrutura bem montada para não aprendermos com os mais velhos. A principal lição do curso, contudo, é o retorno ao antigo costume de ouvir o outro, mesmo que este tenha vivido dezenas de séculos atrás. Que a sereia continue a cantar.


 
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

sábado, 4 de setembro de 2010

Candidato, cuidado com o eleitor ficha suja

Alessandro Faleiro Marques*

Como torço por sua vitória nas eleições, já vou chamar-lhe de Excelência, para o senhor ir se acostumando com o justo título. Sinceramente, não tenho medida do quanto é difícil disputar esse vestibular da democracia. Muitos comícios, argumentos, contra-argumentos, e o pior, ter de viver num ambiente repugnante para a maioria das pessoas. Tenha paciência e seja persistente. Excelência, em muitas nações, há lutas sangrentas para a conquista do direito que, nós, eleitores, muitas vezes desdenhamos por aqui. Possamos aproveitar bem essa oportunidade.

O senhor é honesto, trabalhador, consciente da missão de serviço a qual se propõe. Se me permite, Excelência, gostaria de dar-lhe um fraternal conselho: cuidado com o eleitor ficha suja, corrupto, de alma imunda, propagador das misérias e das injustiças de cada dia. Semana passada, outro candidato merecedor do título com que lhe honro confessou-me estar revoltado. Foi abordado por uma senhora, e esta lhe pediu um caminhão de areia em troca do voto. Ainda chocado pela imoralidade da mulher até outrora respeitável, ele me disse tê-la mandado para o inferno. Achei isso maravilhoso! O senhor também faria isso, mesmo com outras palavras, tenho certeza.

Já ouvi de alguns vizinhos a queixa de que não ganham mais nada, perderam o “direito” de ver aquela dupla sertaneja famosa aqui, bem perto de casa, de graça. “Não se fazem eleições como antigamente”, dizem. Pois é, Excelência, agora posso ouvir, sem confetismos, o que o senhor e os outros candidatos têm a dizer. Suas propostas para cuidar da “res publica”, a coisa de todos.

Eu estava pensando... o desonesto deve adorar essa história de todo político ser chamado ladrão. Isso serve para enfraquecer as propostas de mulheres e homens sérios e fortalecer os adoradores do egoísmo, da antivida e da injustiça. Quando se generaliza, colocam-se todos como “farinha do mesmo saco”, abafando-se quem quer trabalhar. Mais uma vez, suplico ao senhor: tenha persistência e coragem. Sou testemunha de seu empenho em favor da vida em abundância, sobretudo para os mais fracos.

Eu apoiarei seu protesto contra o eleitor corrupto, principalmente contra aqueles com esclarecimento suficiente para ter ideia dos próprios atos. Prometo não render mais conversa quando alguém chegar falando mal dos políticos. Denegrirei quem deixa de votar em pessoas como o senhor e escolhe os que se corrompem. Se uma pessoa eleita é ruim, muitas vezes ela o era assim antes. Pilantra é quem, sabendo disso, insiste em mantê-la em tão honorável serviço.

Cá entre nós, o senhor acharia ser preciso existir uma lei contra candidatos “ficha suja”? Se os cidadãos levassem a sério a importância da escolha dos próprios representantes, a legislação seria apenas um apoio para proteger os mais débeis ou distraídos. O mesmo candidato que xingou a mulher corrupta me contou que, no partido em que é filiado, sobraram apenas sete candidatos de uma lista de oitenta. Se o povo fosse mais cuidadoso, os setenta e três barrados sequer tentariam se inscrever, pois teriam a certeza de não serem eleitos.

Desejo ao senhor muita sorte e, aos meus irmãos eleitores, muito juízo. Quanto aos sujos, todos eles, vassoura!


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Vou jogar pedra nos anjos

Alessandro Faleiro Marques*

Já estou avisando: se acontecer um barulho perto de mim e se houver anjos voando sobre minha cabeça, “subindo e descendo em todas as direções”, vou tirar do bolso meu bodoque (ou estilingue, como queira) e mandarei pedra para acertar bem no meio das asinhas deles. Não quero “anjos voando neste lugar”, desejo anjos com os pés no chão.

Há poucos dias, ao procurar o posto de saúde de meu bairro para me vacinar contra a tal gripe H1N1, dei-me com a cara no portão. Apesar de ser pouco mais de 16 horas, o porteiro da unidade fechou as portas para quatro mulheres, meia dúzia de crianças, para mim e meu pai. Minutos antes, um senhor agredido verbalmente pelo porteiro foi embora, ameaçando chamar a imprensa. Disseram estar lotado o posto, não podendo entrar mais ninguém. Na faixa colocada no muro e retirada minutos mais tarde, estava claro: atendimento das 8h às 17h. Quando dei por mim, estava acabando de convencer à atendente da Polícia que os militares deveriam nos ajudar.

Depois da chegada dos PMs, fomos vacinados (o posto estava vazio). Para minha desagradabilíssima surpresa, dos poucos servidores públicos que lá estavam, alguns frequentavam a paróquia, cuja matriz está bem em frente ao centro de saúde. Quando me reconheceram como um membro da comunidade religiosa, esticaram sorrisos e adocicaram a voz. Seguindo o costume interiorano, cumprimentei-os, mas assumo: não fiz a menor força de colocar tempero na resposta. Eles, e não o governo, estavam envolvidos em dificultar o nosso acesso ao medicamento. Essas pessoas costumam levantar os braços para “louvar o Senhor”, da forma mais ruidosa e alienada possível, mas no trabalho ignoram Jesus, o Deus feito homem, que cura e é avesso à injustiça.

Não sou santo, mas me senti como diante de “cadáveres espirituais”, mortos em espírito, pelo menos naquele caso. Lembrei-me de uma contundente passagem da Carta do Apóstolo Tiago (2,26): “Assim como o corpo sem o espírito é morto, assim também a fé sem a prática é morta”. Gostam mesmo é de “fazer barulho para Jesus”, como dizem, e só. Vi foi preguiça, descaso com mulheres e crianças, coisa de pecadores profissionais, gente com fé vã (já disse: também não sou santo, apesar de querer ser um, de preferência sem morrer).

Uma das fases mais gloriosas do cristianismo é a das catacumbas, na clandestinidade da Igreja primitiva. Ser batizado era assumir estar com os dias contados. Tornar-se bispo ou Papa era buscar o martírio. Como antes, ter fé exige coragem. Diferente do pensamento de muitos, é difícil ser cristão. É um olho em Deus e outro no próximo, como sendo o próprio Pai-Mãe divino.

Quem anda procurando seres alados nos tetos precisa saber: os primeiros anjos somos nós. Não temos asas, às vezes, nem sabemos orar. Mas devemos ser, na prática, os alegres anunciadores-praticantes da boa notícia divina. Atenção anjos que descem do céu, cuidado com o meu bodoque!


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O crime do papel colorido

Alessandro Faleiro Marques*

Chegara o dia. Casa vazia. Os filhos e os netos viajando, como previra. Nos últimos tempos, a senhora, respeitável, andava com um semblante de leve mudado. Não era uma linha a mais do bisturi do tempo, tampouco o prenúncio de outro ataque aos rins, evento comum desde que perdeu o marido. Pelo contrário, a senhora espichava mesmo era um sorriso no rosto. Atrevido tal vilã de novela das seis. Se a filha mais velha fosse menos voada, certamente notaria alguma coisa para acontecer.

Exímia cozinheira, a doninha andava demonstrando certa preguiça em manipular os temperos, substâncias quase mágicas em suas mãos. Havia um certo silêncio pela casa. Aumentou-se apenas o ruído das pancadas estranhas e impacientes nas panelas. Multiplicaram-se as quedas dos copos de vidro. Outrora zelosa, não evitou que o ferro queimasse a camisa do filho. Nem se importou com o esbravejar do rapaz. Antes isso era motivo de lágrimas pseudorresignadas; agora, o palavreado servia apenas para desentupir os ouvidos cansados. Até uma janela esqueceu aberta, fugindo do senso comum de muitos idosos. De notório, maquinava algo.

Acordou diferente na sexta-feira. Mais tarde. Bem depois do nascer do sol. Enfim, hoje, poria real o projeto. A casa só dela. Olhava amiúde no relógio. Para si, contentou-se em esquentar apenas um arroz com meio ovo mexido. Nada mais. Vez ou outra, consultava de rebarba na gaveta um papel colorido. Mais tarde, ela o colocou na frente do avental limpo. As horas custavam. Naquele dia, não estava incansável. Deixou-se aconchegar no sofá. Cochilou. Pulou cinco minutos depois, talvez seis.

Despudoradamente, tirou o papel do bolso. Pelo ritmo aumentado dos movimentos, o tempo parecia chegar. Sol escondido. Janela agora cerrada. Respirou fundo. Deu um passo rumo ao telefone. Respirou de novo, curto. Mais um passo. O descarado papel estava todo aberto agora. Procurou nele o círculo marcado de caneta falha quinze dias antes. Logo acima, outro sinal, sobre um número. Sentou-se ao lado do telefone. Aprendera a usar o aparelho aquelas semanas, vendo de longe os netos. Tirou do gancho. Respirou forte. Conferiu o rabisco. Discou. Silêncio. Espera. “Quem fala?” “Olá, senhora! A que devo a honra da novidade?” “Filho, faça o favor, mande para mim agora o sanduíche número sete e capriche no defumado.”


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Por um Natal com menos brilho

Alessandro Faleiro Marques*

Esta época é excelente para algumas reflexões. Por todos os lados, vemos mensagens, demonstrações de afeto (ainda que só em aparência) e até sinceros gestos de perdão de si e dos outros, de recomeço, como deve ser a vida. Diferente das muitas previsíveis mensagens a pipocar em todos os meios, eu gostaria de desejar algo diferente neste ano: tenha o nosso Natal menos brilho.

O nascimento de Cristo é, em si, um protesto divino contra uma certa canalhice de nossos dias, inclusive nesta época do ano. Para explicar, voltemos às origens, há mais de 2 000 anos. Contemplemos a cena de uma criança obrigada a nascer em um nada estético e mercadológico curral da minúscula Belém, envolto em faixas e colocado em um cocho. Sim, engula-se: Deus nasceu pobre, muito pobre. A quem pensa que ser abençoado é ter coisas, está aí um estridente recado. Desde ali, o Menino Deus já iniciava sua missão. Os primeiros do povo a serem avisados da grande notícia foram os pastores, trabalhadores discriminados na época. O mesmo seria na ressurreição (o maior acontecimento da fé cristã), quando Maria Madalena, representante das mulheres, foi a primeira a testemunhar a grande novidade naquela cultura machista.

Sem firulas, ouso dizer: o Salvador deve rir de pessoas que gastam 12 mil reais em uma árvore de Natal, 11 mil para enfeitar a casa com luzes coloridas, mas ignora um centavo para o próximo pôr pão na mesa, pelo menos nesta época do ano. Ele deve dar gargalhadas de escárnio contra quem acende luzes externas, enquanto as do coração continuam apagadas, imbecis e artificiais como a neve de espuma de sabão a enfeitar vários shoppings.

Caríssimos, oremos para que o Natal, de agora para frente, tenha mais clareza e menos brilho. Destronemos o Papai Noel (não falo do corajoso bispo Nicolau, santo) e coloquemos no lugar o presépio, criação do ricamente pobre Francisco de Assis. Façamos a experiência de resgatar da esmola das horas extras os trabalhadores explorados pelo sistema adorador das trevas dos pisca-piscas. Em último caso, valorizemos os artesãos, as lojinhas e as mercearias, aonde podemos ir a pé e somos chamados pelo nome.

Senhor, obrigado pela chance de, pelo outro, podermos vê-lo, ouvi-lo e sentir seu afeto e até os seus puxões de orelha durante todo o ano. Em nome de nossa saúde, haja, em todas as mesas, as delícias do suficiente, não só na ceia sagrada da noite da Estrela, mas em todas do ano. Que caiam os números dos gráficos financeiros e cresça nossa felicidade. Que resplandeça somente a sua luz. Amém.

A todos a minha clandestina, mas sincera, bênção “urbi et orbi”.


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O Paraíso desde já: duas visões sobre a dor

*Alessandro Faleiro Marques

Hoje, o sexo já não é mais o principal tabu, mas sim as coisas ligadas à doença e à morte. Poucos frequentam com espírito sereno um ambiente de exceção, como um hospital, por exemplo. No contexto cristão, contudo, a dor tem um sentido interessante. Diferente da sociedade da produção, na qual o enfermo muitas vezes é visto como um peso, uma “peça defeituosa”, no cristianismo, aquele que sofre tem uma incumbência singular e, ao mesmo tempo, desafiadora para todos.

Para entender um dos olhares cristãos da dor, voltemos a uma célebre sexta-feira de quase dois mil anos atrás, em Jerusalém. Depois de passar por um dos julgamentos mais questionáveis da História, Jesus foi condenado a morrer na cruz. Segundo o evangelho, durante o caminho do Messias ao calvário, os soldados obrigaram um homem que voltava do campo a carregar o pesado madeiro, pois temiam que o Salvador não tivesse condições de chegar ao final do sinistro itinerário. Mesmo forçado, Simão, da cidade de Cirene (por isso conhecido como Cirineu), ajudou o Cristo a cumprir a Via Dolorosa e, assim, acabou tendo o nome imortalizado na história cristã da salvação (cf. Mt 27,32; Mc 15,21; Lc 23,26).

É possível fazer um paralelo entre o esforço daquele agricultor e o dos doentes. Uma linha teológica diz que os sofredores em geral, entre eles os enfermos, são aqueles que, ainda hoje, ajudam Cristo a carregar a cruz. Como Cirineu, que fez uma “caridade” sem querer, quem chora com a dor não quer passar por ela, mas ganha esse compromisso. Certamente, numa perspectiva de fé, como aconteceu com Simão, é reconhecido por Deus. Em outras palavras, o “dolente” (ou seja, aquele que sente dor) seria da “tropa de elite” divina. Participa do sacrifício messiânico em um dos momentos mais importantes.

Diferente do que acontecia há séculos, a dor não é mais tão destacada, mas sim a ressurreição de Jesus, a vitória sobre o tormento. A gente piedosa, porém, continua identificando-se com a agonia de Cristo. Basta ver que a cultura religiosa popular católica, especialmente a latino-americana, por exemplo, enfoca mais a Sexta-feira da Paixão do que a Páscoa.

O bom cristão, no entanto, não é conformista. Já neste mundo, ele tenta implantar o Reino celeste esperado e prometido. Na lógica da fé, não há dor no Paraíso. Por isso, quem realmente segue os ensinamentos de Jesus não admite sistemas de saúde precários, deficiência na prevenção e descaso contra os enfermos e profissionais que deles cuidam. Essa é a outra forma de o cristianismo ver a dor. A mortificação violenta voluntária, como faziam os antigos místicos, hoje tem pouco sentido.

A luta “para que todos tenham vida e em abundância” (Jo 10,10) é uma legítima tarefa cristã. O próprio Cristo tinha grande compaixão pelos sofredores, e não é difícil achar trechos dos evangelhos em que Ele cura, conforta, alivia o sofrimento físico e espiritual. Ele é o próprio exemplo para seus seguidores fazerem multiplicar, desde hoje, a alegria eterna, numa terra sem males (pelo menos os evitáveis), sem se esquecer da dignidade dos que sofrem.


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Impressões da visita à Rainha Morena (4ª e última parte)

Alessandro Faleiro Marques*

Encantamento e piedade não foram as únicas coisas a nos tocar na rápida peregrinação ao Santuário Nacional. A capital católica do Brasil também tem as suas profanas sombras. São em intensidade menor que as da outra, no planalto central. Em Aparecida, contudo, parecem incomodar mais justamente porque nos pegam despreparados.

Logo ao chegarmos ao estacionamento da Basílica, sentimos muita falta dos caminhoneiros. Um antigo costume leva os viajantes do Vale do Paraíba a fazerem um rápido pouso sob o manto da Mãe de Jesus. Onde estariam? Talvez lá, reduzidos na imensidão do templo, mas não os notamos. Que, pelo menos, os vejamos da próxima vez.

A questão do comércio, demanda histórica dos mais críticos, também nos chamou a atenção. Mesmo nós, resignados em um ambiente urbano, acostumados com lojas ávidas pelo dinheiro das multidões e alimentadas pelo carbono do ar, ficamos um pouco constrangidos com o tamanho do chamado “Centro de Apoio ao Romeiro”. Sinceramente, não é muito diferente dos shoppings populares espalhados pelo Brasil. Que o digam os fabricantes chineses. Tivemos certa boa vontade em ver de outro modo o espaço, mas não deu. Pensamos, por exemplo, ser a música tocada no centro da praça de alimentação uma dessas canções religiosas modernas. Não era. Como em qualquer bom palco violão-banquinho, soava um belo clássico de Djavan. Quando nos demos e fizemos as contas, as sacolas já pesavam nossas mãos. Ofegantes, nós nos flagramos com uma lista na mão e pouco no bolso. Não pudemos nos defender frente à nossa consciência. Durante pouquíssimas horas, perdemos o foco. Pagamos o preço. Literalmente.

Perder o rumo da alma em Aparecida é muito fácil. Uma tentação. Parque de diversões, aquário, mulher-macaco, feira que vende de um a tudo. O pior é quando eles nos perdem a vista. Ficamos chocados quando, do mirante da torre, encontramos só a ponta da outra, a da Basílica Antiga. Antes, do alto da colina, os peregrinos já podiam contemplar o histórico templo. Símbolo de uma viagem bem-sucedida. Um dos célebres milagres registrados na terra da Padroeira foi justamente o de uma menina cega que, ao ser levada pela mãe ao santuário, perguntou de longe se aquele que via era o templo de Nossa Senhora. A ganância de uns, a falta de senso histórico de outros e a ignorância de todos permitiram o cerco de concreto à antiga igreja. Prédios de péssimo gosto arquitetônico sufocaram a praça e parte da história do Brasil. O conjunto da igreja singela e da praça sobrevive, desfigurado.

Ainda quanto ao gosto, fomos vítimas de nosso orgulho. Pecamos de novo. Quando visitamos o santuário de Lujan, na Argentina, tentamos provar algumas das iguarias preparadas por nossos irmãos e vizinhos. As vísceras assadas definitivamente não combinaram com o calor úmido daquele dia. Mesmo assim, salpicando críticas cochichadas em português mineiro, engolimos alguma coisa. Pensamos que, em Aparecida, no nosso santuário, seria nossa apimentada "vingança". Caímos no canto da sereia, disfarçada de porteiro de restaurante. Comemos a pior comida de nossa vida. Um espaguete profano e ruim. Sem graça e caro, quase com direito a troco errado de sobremesa. Ponto para a Nossa Senhora de lá.

Para encerrar a lista das observações mais mundanas, não podemos deixar de mencionar de novo o comércio articulado dentro do próprio santuário. Contemplamos o mirante e o museu. Visita paga, mas justa e proveitosa. Na saída, a porta do elevador nos joga para o corredor demarcado por cordas. Contra a nossa vontade, vimo-nos empurrados para a lojinha, ao pé da torre. O silêncio mútuo da hora denunciou: não gostamos. À direita, outra loja: artigos religiosos, água do Paraíba e até ex-votos de cera. Como se eu, morando na casa de minha mãe, vendesse o presente que você daria para ela. Na gloriosa Sala das Promessas, o resultado: os membros de cera são praticamente iguais. Produção em série. Por conveniência, os peregrinos estão deixando de levar seus objetos cheios do colorido regional. Eles os compram ali, ao lado. O espaço, resumo do Brasil, como já dito nesta série, perdendo parte do brilho.

Não gostaríamos de terminar esta série falando mal da Mãe. Afinal, ela nos acolhe e sabe nosso nome. Temperos ruins, ganância e bolsos vazios não impedirão nossa volta à casa da Rainha Morena. Pecadores também somos. Como acontece quando nos aproximamos da mãe, aprendemos mais uma lição. Aqui virou reza: Mãe, negra e pobre como os pobres escravos, Rainha rica em bondade e beleza, fecha nossos olhos e ouvidos ao que nos desvia de teu Filho e de ti. Abre nossa alma para ouvirmos o teu silêncio sábio. Permite podermos contemplar só a tua sabedoria, os teus olhos e o teu doce e barroco sorriso. Que o sabor de tua casa seja o do pão dos anjos. Sejam os caminhos planos, mesmo no subir da Serra. Mãe, como fizemos em teu santuário, visita a nossa casa. Amém.


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator, peregrino e revisor de textos
Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Querem esterilizar a história

Alessandro Faleiro Marques*

Em vários contextos e por motivações diferentes, está havendo uma campanha contra os crucifixos. Algumas autoridades dizem que o Estado é laico (conceito quase sempre confundido com "ateu") e, nas dependências de suas instituições, não deve haver símbolos religiosos. Os incrédulos já procuram outro “enfeite”, e até os religiosos andam trocando o crucifixo no pescoço por um potente pen drive, talvez mais útil para eles nestes tempos pós-modernos.

Dias atrás, em um curso (muito proveitoso, diga-se), ouvi de um religioso que, na nova configuração dos templos católicos, tende-se a um destaque aos ícones do Cristo ressuscitado, substituindo as cruzes colocadas segundo as atuais normas litúrgicas. O foco em Jesus vitorioso sobre a morte é justíssimo entre os cristãos, afinal é o evento mais célebre dessa fé. Preocupa-me, porém, outro ponto da pendenga.

A palavra “sacrifício” tem origem no latim “sacrificium” (“sacer”: sagrado; “facere”: fazer), ou seja, fazer sagrada alguma coisa. O paralelo com o pensamento pós-moderno foi inevitável. Neste início de milênio, o individualismo, o prazer instantâneo, a pressa irracional e o excesso de informações fragmentadas nos sufocam e, ao mesmo tempo, envolvem-nos. De repente, estamos nós a propagar valores questionáveis. Quando nos damos conta, já somos parte ativa do "sistemão". Virou coisa do passado esforçar-se pacientemente para realizar um sonho, dar um passo de cada vez.

Se os seguidores de Cristo comemoram a Páscoa, a ressurreição do Ungido, é porque, antes, houve a morte dele. A cruz era, no Império Romano, um instrumento de terror usado para executar pessoas extremamente perigosas para aquele sistema; e Jesus era uma delas. Os primeiros cristãos a rejeitavam como símbolo, pois conheciam de perto o que ela representava. Era sinal de medo e vergonha. Só mais tarde, talvez no século III, a cruz ganhou uma conotação religiosa, celebrando a passagem de Jesus por ela para tornar sagrado o seu projeto.

A atitude de ignorar a cruz hoje pode reforçar algumas injustiças. Se vale somente o Jesus ressuscitado, já pronto, nesta nova concepção, doentes, encarcerados, miseráveis e outros excluídos podem ser esquecidos inclusive pelos cristãos mais distraídos. Será um incremento à “teologia da prosperidade” (outro reflexo do atual hedonismo), segundo a qual só os que possuem são os abençoados.

Ignorar os marginalizados, certamente representados naquele crucificado, é dar outro golpe no Deus que “sacia de bens os famintos e despede sem nada os ricos” (Lc 1,53). E mais: a sociedade do descartável agradece; agora tem outra boa ideologia para justificar-se. Enfermos, idosos, crianças, desempregados, analfabetos serão aterrados, pois não produzem e nem compram, são peças quebradas, inúteis nas engrenagens insaciáveis do “mercado”, feito de carne e osso.

Mesmo quem não professa o cristianismo ou qualquer outra fé deve refletir sobre essa onda de jogar para debaixo do tapete o sangue, o pó, a tortura, o sofrimento divino e humano ao mesmo tempo. Isso pode refletir-se em valores que transcendem escolhas espirituais e afetar a vida de todos. Nós também precisamos do Deus imundo e ensanguentado.




* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A Guerreira que devolveu a música aos brasileiros

Alessandro Faleiro Marques*

Nestas duas últimas décadas, quem vê cantoras levando multidões a estádios, parques de exposição e casas de espetáculo nem imagina como foi difícil as mulheres conquistarem também o espaço dos palcos. Desde a magnífica Chiquinha Gonzaga e talvez outras que viveram antes dela, enterradas bem fundo pela ignorância histórica, muitas vezes as artistas eram desacreditadas.

Entre as décadas de 1960 e início da de 1980, a história resolveu mudar. Nas ladainhas em latim entoadas pelo coro da matriz de Caetanópolis, em Minas Gerais, ouvia-se a voz da menina Clara Francisca Gonçalves Pinheiro. Com o sobrenome artístico herdado da mãe, passou a ser chamada de Clara Nunes. Depois de muito sucesso no rádio e inspirada por vozes de outras grandes mulheres, como de Carmem Costa, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira e Ângela Maria, Clara gradualmente se tornou uma espécie de embaixadora da música brasileira para os próprios brasileiros.

A missão da Guerreira veio em uma época particularmente difícil para a nossa música popular. Por motivos nem sempre nobres, nos anos 60 e 70, as canções estrangeiras, sobretudo as estadunidenses, esmagavam muitos talentos nacionais e devassavam os espaços na mídia. Muitos sucessos em português apresentados por artistas do Brasil nada mais eram do que “releituras” das músicas compostas por artistas dos EUA ou da Inglaterra. Por ignorância ou sede de sucesso, muitos tinham pseudônimos em inglês e nessa língua cantavam. Tudo sob a conivência do público, faça-se justiça.

Por outro lado, cheia de alegria, com seus balangandãs, levando o chocalho na canela, e paramentada com o vestido branco da umbanda, Clara Nunes relembrou ao povo: existia samba além carnaval e forró além São João. Com Sivuca, ela contou ao Brasil como era a Feira de Mangaio, tudo ao som de uma contagiante e puríssima sanfona nordestina. Na voz dela, o Brasil ouvia em samba e coral afro um dos mais célebres lamentos nacionais, o Canto das Três Raças. Quem melhor do que Clara poderia interpretar a comparação entre o desfile da Portela e uma procissão?

Alguém agora pode estar lembrando-se agora do papel de Elis Regina. A missão de Elis foi a de refinar a música, lançando novos nomes e um jeito caloroso de interpretar. Por isso, ainda hoje, ela atrai mais o público “cult”. Não é muito o caso de Clara Nunes. Esta também tinha uma interpretação maravilhosa, no entanto fez mais um trabalho de resgate de algo que existia, mas andava esquecido pelo povo. Por providência divina, Clara e Elis viveram na mesma época e partiram cedo, deixando, cada uma a seu modo, uma importantíssima contribuição para a cultura brasileira.

A própria vida de Clara Nunes é a principal mensagem que ela nos dá. De menina do interior a operária e grande cantora popular, a primeira a vender mais de cem mil cópias, quebrando um tabu, a “tal mineira” foi uma legítima brasileira. A moça adotada pelo povo ainda nos quer chamar a atenção para as vozes divinas de homens e mulheres que a mídia insiste em silenciar. Ela nos pede um olhar mais carinhoso para as nossas raízes preciosas nestes tempos de muito barulho, falta de melodia e de criatividade. Quem melhor poderia ser chamada de Guerreira?


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O caso do drible


Alessandro Faleiro Marques*

Ele era o típico moleque bom de bola. Nunca foi dono de uma, mas sabia como poucos acariciar a redonda. Seus passes e passos eram disputados por times gloriosos da várzea. Encarava tudo. Jogo em campo escavado em barranco de terra vermelha, área de risco de tudo quanto havia. Chuva, sol, manhã de domingo encefaleico e até noite cansada, nada impedia aquele negro liso de mostrar publicamente o romance quente com a pelota.

O mês foi de alegria. Depois de anos caroneando, o craque conseguiu emprego. Não compraria uma bola, mas o telhado para pôr no casebre onde se escondia precário com a mãe e as irmãs. Tinha sorriso redondo e conversa fácil. Entrosou sem dificuldades com os primeiros colegas de trabalho. Em uma semana, já estava na dianteira do ataque na disforme seleção da firma.

Ganhou o direito de participar do primeiro amistoso contra os pernudos das forças armadas. Gente elegante em cedo azul de sábado. O moço sabia entoar o virundum. Do time era só ele. Exigência da mãe. O gerente sério e o supervisor letrado tropeçaram nos invertidos verbais da melodia nacional. Menos o rapaz. Ele cantou e recantou. Nem bateu palmas no final, como manda a etiqueta meio esquecida.

Bola rolou no compromisso interessante. De primeira, o arremedo de Pelé deixou dois no chão. Sargento e soldado raso. Chutou, e o tenente goleiro nem teve trabalho exceto o de riscar no olho o rumo do objeto. Carimbo no alumínio atravessado. Susto só. Mais uns minutos poucos, e lá veio ele. Fez que ia, fingiu que pisava. Soldado, o mesmo de antes, e cabo no piso. Só correu para o centro da grande circunferência de cal. Mais um gol na carreira entranhada. Nem ligou para o solo de festa. Estava acostumado. De novo, a donzela achou o príncipe. Corrida solitária, grama no alto. Falta! O próprio time fez de escudo o doce negro. “É só deixar pra ele”, berrou o porteiro. Todos certos. O porteiro e o craque. E o tenente buscava outra no fundo do caixote de barbante. Nem dez minutos fazia.

Depois de outras gingadas humilhações e guerreiros no relvado, o capitão em patente e honra do time aéreo não aguentou. “Ô Cabo, soldado, vocês tão dormindo? É pr’abater! É pra jogar em pé!” “Positivo, capitão!” Logo mais uma vítima: o soldado da lateral. Entortado pelo corpo de mola do negro educado. Mais bronca do capitão. Ameaça de ficar depois do expediente. Mais dribles, mais xingos. Coisa impublicável. Mais reboles de canela. Oficiais na horizontal. Desta vez, ameaça de cela. Nem era fim do primeiro tempo, e o negócio andava feio. Sol quente e vista suada. Pobre tenente, já praticamente rebaixado de posto assistindo à bola entrar. “Esse moço é o cão, senhor!” “O senhor é uma galinha, senhor”, contralançou o líder bravo.

Aquele falatório de enxofre incomodou o moço. No campo de terra, quando não tem briga, a turma joga, e tudo acaba numa cumbuca de feijão gordo no bar da praça. Costumam nem precisar do tal de “fair play”, coisa que aparece por lá, junto com novas camisas, só em época de eleição. Seis a zero. Quatro do centroavante e um do auxiliar de estoque. O sexto foi contra. O susto foi o autor deste, quando o cadete viu o negro brilhante chegar, e tocou para a meta errada. Fim do primeiro tempo. Um verdadeiro espetáculo do herói de ébano. Quanto ao capitão, teve de criar novos palavrões para ver se o time fardado pegava no tranco.

Um pedido assustou os paisanos, já assombrados com a raridade do vestiário profissional. A estrela do time pediu para ser zagueiro. Com os punhos descansando no abdômen cevado, todos concordaram. Água gelada, bexiga vazia e volta ao campo.

Segunda etapa do junta-junta esportivo. “Cabo, aquele negão deve estar querendo aprontar alguma”, desconfiou o sargento rodado. Acertou. O plano do novo defensor tinha motivo nobre. Uma aula de humildade não pra ele, já doutorado, mas para o comandante do outro time. O capitão tinha sido poupado dos riscados gloriosos do primeiro tempo. Pensava ser bom. Escalou-se para o ataque e ficou livre do confronto hormonal com o dianteiro cor de chocolate. Este mostrava um sorriso mais largo que o da primeira etapa. O jovem operário defendia tudo. A pepita parecia sair dos pés dos atacantes e correr para os dele, qual ímã. A meta do zagueiro nobre deixava de ser o gol, mas outra, e atrevida.

Com a mudança de posição do artilheiro, o time perdendo respirava, pois o placar jazia inalterado, liberando mais militares para a ofensiva. Numa dessas, o capitão driblou o Guengué motorista, deitou com um vai-que-não-vai o Chucruta faxineiro, chapelou o Tonho Alcântra vigia e deixou comendo grama o encarregado Pedreira. Parou a festa justamente no último defensor. Como era de se esperar, a bola pulou do pé do oficial e colou nos dois do zagueiro de luxo. Em vez de mandá-la para frente, naqueles fragmentos de segundo, resolveu tornar-se um mortal pecador que cultiva uma clássica vingança. Pisou na gordinha, acariciou-a com a sola da chuteira gasta, e, num átimo, jogou a redonda por entre as pernas da vítima. Desequilibrado, o desaforado ainda tomou um lençol, dois dribles de letra e um rabo-de-vaca. Veio o golpe de misericórdia: mais uma passada por entre as canelas. Comandante prostrado. Despediu-se do couro redondo e o mandou pra frente.

Murmúrios e risos escondidos nos dois times. No fundo, todos agradaram da aula, repetida ainda uma meia dúzia de vezes naqueles 45 minutos. O capitão pendurou as chuteiras ali mesmo. Na segunda-feira, o time armado não falou mais no assunto. O artilheiro também não.


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Às vezes, inventa verdades.  
Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Impressões da visita à Rainha Morena (3ª parte)

Alessandro Faleiro Marques*

“Infeliz quem não te conhece, padece em vão, sem consolo.” Esse trecho de um antigo hino à Padroeira do Brasil era um dos cantados pelos romeiros quando chegavam a Aparecida, depois de uma viagem sob voto de silêncio orante. Iam para prestar contas a Deus e ainda voltar no lucro, com o bolso espiritual pleno de paz. Assim ficamos ao visitar aquele lugar, excluído o jejum de palavras, por fraqueza nossa. Mais do que conhecer a dona da casa, o principal sentimento foi de sentir-nos reconhecidos por ela.

Na parte anterior destas impressões, o nosso espanto renovador diante da maior coletânea mística que já vimos: a Sala da Promessas da Basílica Nacional. Fotos, vestidos, armas, tudo quanto é objeto contando um pouco não só de fé. É tratado vivo de Antropologia, Teologia, Psicologia, História e outros saberes que, como os peregrinos, permitirem-se a tal experiência.

Faltaram-nos outros ex-votos afamados. Como as correntes quebradas do escravo Zacarias. Alforriado pela própria Mãe de Deus, feita negra para o Brasil. Quilombola-mor, guerreira plácida de uma aldeia multicor. Por ela tem cada filho contado e nomeado, tal qual em casa pequena. Ali coube mais um. Como ela, quem entende melhor de liberdade?

Na Sala das Promessas, não vimos também a pedra carimbada pela ferradura da montaria do incrédulo fazendeiro. Cabeça quente. Tentou entrar na casa da Mãe sem pedir licença. Malcriado corrigido sem palmadas, mas com susto dos bons. Ex-infeliz. Água suja mudada em vinho nobre. Braveza amansada. História mais rica. Em sabedoria oriental, a anfitriã hoje pensa melhor: “Imagine se prego no liso todos os que entrarem no santuário com alma pesada... quantas marcas de sandálias, sapatos, coturnos, pneus... Haja pedra e haja museu! Haja blog”. O ralhar ficou para aquele incrédulo. Afinal, há digno de entrar em casa feita santa? De que vale remédio para são?

Essas e outras relíquias as encontramos na torre do Santuário. Depois do assombro com as formas do templo, da serra e do Vale do Paraíba apontadas do mirante, descemos ao museu.

Lá estavam os testemunhos dos favores divinos mais conhecidos dessa parte do continente. Também as rosas de ouro dadas pelos papas. Honra nobre à hebreia humilde. Coroas, fotos e recordações. Restos do incidente: pequena imagem de barro virou pó. Ícone atacado por um jovem vítima dos próprios neurônios e de quem os manipulou. Mais uma terminada bem.

Tudo foi experiência. Mas a sede espiritual do Brasil também tem lá suas mazelas. No último artigo desta série, as nossas desventuras e cutucadas. Queixas contra os filhos. Só. Nós, pobres e pecadores romeiros, nossos pés passarão soltos no granito da entrada, felizmente.


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator, peregrino e revisor de textos
Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Impressões da visita à Rainha Morena (2ª parte)


Alessandro Faleiro Marques*

No artigo anterior, o primeiro contato com a monumental Basílica de Nossa Senhora Aparecida, no Vale do Paraíba. Agora, depois da avidez do olhar e das pernas, um pouco de detença.

As horas por lá foram insuficientes para vermos tudo, mas o que sentimos já nos fez participar do capítulo começado no segundo semestre de 1717. A história tem lá suas vaidades. Quando nos assustamos, nela estamos. Criatura esperta. Nós nos damos conta, e já nos pegaram as linhas dos registros. Não há como escapar.

Para as estatísticas, éramos um nada. Dois pontos. Para a "dona da casa", um filho e uma filha juntos com mais dezenas de milhares de irmãos. Coisas de mãe de Onipotente.

Aparecida parece zombar de tamanhos. A cidade e a imagem da padroeira, minúsculas; a fé do povo, imensurável. Diante desta, o templo gigante e a passarela curva nem se comparam. Do chegado da roça ou romeiro da metrópole, de quem já viu tudo ou ainda verá, grande parte do Brasil parece querer caber naquelas colinas. Provar isso é fácil.

Se o País fosse um livro, certamente o sumário dele estaria no subsolo do santuário. Outrora nas paredes da antiga igreja, os reorganizados ex-votos são testemunhas silenciosas de choro e alegria. Sofrimento tornado júbilo. Lágrima enxuta tornada crença nova. A Sala das Promessas, como é chamada, tem rastro de doutor e de peão deste e até de outros povos.

Do teto, milhões de rostos parados em fotografias parecem querer gritar aos que chegam: há o além-palpável. Esperança existe, e é o terminar bem de tudo.

Ressurreição é pra vida toda. Olhando para a parede, vê-se a imagem da padroeira vigiando em sorriso. Mais uns passos, as panelas do avesso, os diplomas, as ferramentas, os capacetes, as fardas e as medalhas. Depois da pilastra, os quadros, os vestidos de noiva, as bandeiras. Ao canto, a réplica do barco dos três pescadores que, no século XVIII, atualizaram o milagre dos peixes do tempo de Cristo. Mais um olhar para cima, e as peças de cera. Braços, pernas, rins, cabeças formando o corpo das dores curadas. No armário, armas. Embaixo, símbolos enfileirados de atletas. Ali, humildes, membros do mesmo time.

O murmúrio dos visitantes abafa o antigo sofrimento emanado dos vícios empilhados em outra prateleira. Coisa dura de ver. O que na tevê é sorriso de comercial, na sala dos milagres, é sobra de amargura. O riso de verdade parece existir agora, mas distante das garrafas, maços e cartas.

Naquele subsolo, tivemos a certeza: erramos acompanhados neste mundo. Nem museu, nem pura exposição ou ponto turístico. De tudo era naquela ponta de livro vivo. Sentimos falta das correntes quebradas, da pedra carimbada pela ferradura. Mas nós as encontramos depois. Assunto para a próxima parte deste artigo.


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator, peregrino e revisor de textos
Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Impressões da visita à Rainha Morena (1ª parte)

Alessandro Faleiro Marques*

A verdade: o coração não batia do mesmo jeito. Enquanto avançávamos a estrada paralela à Via Dutra, vencíamos com mais voracidade cada metro engolido pelo carro preto. Nosso destino pareceu estar mais próximo. Não pela indicação das placas, mas pelos homens seguindo no canto da via. Passos rezados, cajado e mochila. A fé deles indicava que estávamos no rumo.

Depois da sequência de curvas, cada pulsação dentro da gente abafava teorias, críticas, ideias preconcebidas. Ao contornarmos a última curva, eis que surge o topo da impressionante torre. Admiramos em voz alta. Outra curva. Ela sumiu. Mais uma contravolta, e lá estava. Gigantesca. Vermelhamente monumental. Éramos engolidos pelo pátio posterior da segunda maior igreja do mundo. Subimos a rampa e nem nos importamos com o preço do estacionamento. Estávamos boquiabertos. Nem sabemos se o troco foi o certo. Queríamos conferir mesmo era se os nossos olhos estavam vendo o Santuário Nacional. Colossal construção a envolver a minúscula imagem aparecida do barrento eme do rio Paraíba.

Tivemos de respirar: emoção e viagem sinuosa desde a ponta da Serra da Mantiqueira, onde ficava Campos do Jordão, terra cheia de europeísmo. Na planura do Vale, juntava-se parte do verdadeiro Brasil. Gente de tudo quanto é cor, sotaque e condição. A nossa reserva de admiração era tanta que começamos o passeio já no grande pátio, em torno do círculo de túmulos episcopais dispostos na ponta de um dos braços abertos em curva.

Andamos rápido. Olhos em tudo. “É logo ali”, disse o guarda. Nem nos lembramos se o agradecemos. Que aqui o seja feito. Subimos a rampa ao som do canto coletivo. Olho fixo na parede, à esquerda. Ao ritmo de nossos passos, ela se nos mostrou naquele fim de manhã do sábado. Lá estava a pequena estátua no nicho nobremente metálico. Em milésimos de segundo, os joelhos dobrados jogavam por terra teologia e tudo quanto é racionalidade. Que se danem os livros! Lá estava a representação da Virgem. Morena da cor de muitos de nós. Assim a Mãe adotou o Brasil.

No silêncio envolvido em vidro blindado, o ícone coroado parecia aumentar o sorriso do barro cozido. Quantas fotos, quanta gente naquele maio. Não sabemos dizer (aliás, pouca coisa se explica em Aparecida), mas tivemos a mesma impressão: a mais brasileira das hebreias estava nos esperando. Parecia saber nosso nome. Nome, sobrenome e vida de cada um que se organizava por entre as barras de corrimão. Revelação que fizemos mutuamente durante o destemperado, deselegante e caro almoço da cidade velha.

Tudo majestoso. Por onde os olhos se voltavam, interjeitavam-se a correição de peregrinos, as pinturas, os corredores, a cúpula, as capelas. Mas a pequena imagem, coroada, mas humilde, representava a maior das mulheres.
No palácio e arredores, não faltam particularidades. Mas isso é assunto para a segunda parte deste artigo.


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator, peregrino e revisor de textos
Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Sentidos da rua torta


Alessandro Faleiro Marques*

Pelas minhas contas, passo por aquela via sinuosa há mais de uma década. A pé, de carona, de caminhão, orando, com unha encravada, confabulando sozinho ou acompanhado, dentro do meu carro, correndo de temporais, com febre ou com pressa, tenho vencido as poucas centenas de metros pelos anos. Nela já vi de cardeal a padre raso, de soldado engomado a ladrão lacrimejante, trabalhadores, artistas, vadios e até ninguém.

Por alguma razão meio explicável, a tal rua tem feito parte de minha história. E só notei isso ultimamente. Com atraso, reconheço. De uns tempos para cá, estou olhando com mais atenção aquele risco cartográfico cheio de porções de asfalto, cimento, buracos, grama e pontas de tropeço.

Quando ainda estudava na faculdade, era um excelente atalho. Generoso para a vista. Do início ao final do trecho, eu podia ver belos e vespertinos horizontes não só da própria Belo Horizonte, mas de parte de Contagem e até de outros lugares os quais minhas células oculares não conseguem separar como nos atuais mapas eletrônicos. Pelas calçadas convenientes, conseguia chegar a tempo para eu não perder os primeiros minutos das aulas do curso de Letras, ainda mais quando o motorista do ônibus resolvia não parar no ponto que me deixava só na metade do caminho. Cá entre nós, depois colocam a culpa no governo pelo problema do transporte coletivo... Para a frustração dos meio-politizados (e para a minha), não é só dele a responsabilidade pela ineficiência. Sou disso testemunha muscular. Fato: o desvio realmente encurtava a canseira.

Pouco tempo depois, arrumei serviço na região. Por ironia, precisaria tomar a mesma linha cruel, mas em um horário mais para laudes ou ordens do dia. Onze anos depois, mudei de empresa. O endereço da novidade também me força a transitar pelo lugar.

Olhei para o lado estes dias. Estão acabando de construir um prédio. Está lá, do lado direito. Justamente onde eu podia tentar achar o meu bairro. Perdi uma cara atração. Para não ficar de graça, porém, escrevo e não apago: não sou doido de morar naquele columbário. Fica perto do pequeno, mas ativo aeroporto. E se algum piloto inventa de tomar umazinha antes de pousar e acaba errando a pista? É perigo! A chance pode aumentar se o sujeito for incrédulo e se esquecer de jogar no pé da planta a augusta dose do santo. Não é pessimismo não, mas eu já pensei. E deu tempo. Coisa de quem caminha.

Essa história de prédio no meio da reta de meu bairro e do avião anda colocando em mim uma espécie de lente. Não consigo mais olhar do mesmo jeito aquela em si companheira de andança. Um filtro ótico tem-me feito observar situações antes despercebidas. Reconheço que o espaço só começou a me interessar de verdade depois de alguns fatos meio surreais, espantosos. Como em tantas ofegantes pernadas, não perderei tempo. Vou direto contando.

Como explicar, de um ônibus escolar, às seis e meia da manhã, bem na minha frente, descer um menino? O pequeno loiro, de merendeira e tudo, saltou do veículo, agradeceu ao motorista, abriu o portão e entrou em casa. Imaginei ser coisa de cidade grande, que costuma ter mania de não querer dormir (pensa que é um atributo). De repente, seria um jardim de infância na madrugada. Imagine ser vizinho de uma escola e da barulheira emanando da saúde dos pequenos em plena madrugada! Eta, isso parece coisa do bicho-ruim, e com minúscula mesmo! Diminuí a marcha e fiquei olhando a bizarrice.

Como agora, pensava estar no meu pleno juízo, apesar de não o querer naquele dia. Assim seria mais fácil defender-me das risadas descrentes. O pior de tudo: desde a primeira visão, há uns oito anos, essa cena repetiu-se por quase uma dezena de vezes, sem carreira certa. Parece pouco, mas foi o suficiente para eu novamente deter a pressa, provando a importância do fenômeno. Acha que, um dia, vou perguntar alguma coisa para aquelas criaturas? Eu não! De repente, o menino e os outros do ônibus podem não ter olhos, falar alguma profecia catastrófica de mim, soltar fogo pela boca... Prefiro é ficar encucado mesmo. É um problema e um motivo a menos para forçar-me à corrida apavorada por aqueles passeios cheios de desníveis. Valei-me, Deus, pode ter buraco novo!

Pouco tempo, muitas ambulações e economias depois, consegui comprar um carro já rodado. Alívio! Foi minha desforra contra o poder público e o motorista que gostava de deixar-me a ver nada no ponto. Mais feliz fiquei quando descobri ser mais barato eu ir trabalhar no meio particular que no público. Depois senti vergonha. Obviamente, nas minhas contas, ignorava a manutenção e a pancada de impostos a punir o meu suado conforto. Ainda bem: um inteligente qualquer criou a expressão “custo-benefício”. Assim minha consciência continuava jubilosa. Agora sim, veria a rua por outro ângulo. Orgulhosamente, começaria a andar no meio dela, em mão e contramão. Ganhei tempo, maciez no banco e uns quilos, os quais não consegui perder até hoje, indulgenciando-me de novo com o tal custo-benefício.

Pois bem, numa manhã fria, uma senhora saltou na frente do meu veículo. Respeitável e agasalhada, contou-me ofegante ter sido esquecida pelo filho encarregado de levá-la para a missa, celebrada num convento no final da via, à esquerda. No curtíssimo período, só não falou meu nome e sobrenome. Parecia saber de quase tudo de minha vida. Realmente eu me lembro bem dela. Passava por mim todas as manhãs. Usava cachecol, mesmo no verão. Contou detalhes do meu cotidiano, onde eu trabalhava, ofício e até horário... Chegamos rapidamente à porta da capela; um ou dois minutos. O tempo foi o suficiente para deixar-me boquiaberto e ganhar da piedosa vovó a promessa do pagamento em moeda de preces. Lembrei: a anciã sempre andava na direção contrária do ônibus anti-horário. Não a encontro mais.

E como explicar o caso da Dona Maria? Eu a tinha assim por pura falta de criatividade e porque achei ser esse mesmo o nome dela. Sempre a ultrapassava, quando eu estava a pé ou motorizado. Sentia-me uma carreta morro abaixo ultrapassando um fusquinha antigo morro acima, daqueles que funcionavam à base de cadarço movendo a roldana do motor. Sim, dava-me um prazer mesquinho deixá-la para trás. Esse era sempre um pequeno desafio a ser vencido. Puro deleite egoísta. Um venial pecado matutino, nada mais. Minha graça terminava logo. Não sei o porquê, mas a tal Dona Maria sempre já estava no ponto do ônibus coletivo (este convencional) quando eu passava por lá. Boas dezenas de metros na minha frente. A mulher pegaria carona com o escolar assombrado? A vantagem foi ver que o pecado da ultrapassagem já fora vingado, dispensando-me, na minha teologia própria, da confissão deste e de outros semelhantes. Para eu não baixar a crista, continuei deixando-a para trás quando conseguia mirá-la pelo caminho. Nem quis saber. Ficasse ela com o mistério, e eu, com meu pecado perdoável. E ficamos conversados.

Enigma também no moço do guarda-chuva. Previsível, pontual. Tanto que quase o esqueci neste conto. Com sol ou não, está lá. Parado, olhando para um lugar alto e fixo montado psiquiatricamente em uma direção diferente a cada dia. Sentinela da natureza. Que o digam as galinhas gordas e bravas alinhadas num poleiro da casa vizinha à loja de carros antigos. Pelo menos tem um serviço. Se ele sumir, sentirei falta.

Rua que assombra e é assombrada. Ontem, ia com meu novo carro velho. Devagar. A experiência adquirida em pouco mais de uma década me permitiu ser menos apressado, pelo menos ali. Olhar mais atencioso àquela trilha com nome. Atrás de mim, uma nuvem gigantesca. Chuva rodeante e dependurada para cair. Trovão em tom de caçamba despejando pedra. Subia pela única colina do trajeto uma senhora. Mais uma usuária da estrada urbana. Confiante e caridoso, freei. Falei da tempestade vizinha. Abri a porta. E ela negou a carona... Esqueci-me das regras da metrópole. Com minha gentileza, dei-me por errado. Valor invertido, mais um.

À noite, encontrei-me com um amigo, companheiro de passagens mais retas. Contou-me que uma de suas colegas do trabalho chorou o remorso encharcado. Perto do aeroporto, ela negou uma carona oferecida. Pensava depois ser a do próprio anjo da guarda.



Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos
Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com)