Alessandro Faleiro Marques*
Ele era o típico
moleque bom de bola. Nunca foi dono de uma, mas sabia como poucos acariciar a redonda. Seus passes e passos eram disputados por times
gloriosos da várzea. Encarava tudo. Jogo em campo escavado em barranco de
terra vermelha, área de risco de tudo quanto havia. Chuva, sol, manhã de
domingo encefaleico e até noite cansada, nada impedia aquele negro liso
de mostrar publicamente o romance quente com a pelota.
O mês foi
de alegria. Depois de anos caroneando, o craque conseguiu emprego. Não
compraria uma bola, mas o telhado para pôr no casebre onde se escondia
precário com a mãe e as irmãs. Tinha sorriso redondo e conversa fácil.
Entrosou sem dificuldades com os primeiros colegas de trabalho. Em uma
semana, já estava na dianteira do ataque na disforme seleção da firma.
Ganhou
o direito de participar do primeiro amistoso contra os pernudos das
forças armadas. Gente elegante em cedo azul de sábado. O moço sabia
entoar o virundum. Do time era só ele. Exigência da mãe. O gerente sério
e o supervisor letrado tropeçaram nos invertidos verbais da melodia
nacional. Menos o rapaz. Ele cantou e recantou. Nem bateu palmas no
final, como manda a etiqueta meio esquecida.
Bola rolou no
compromisso interessante. De primeira, o arremedo de Pelé deixou dois no
chão. Sargento e soldado raso. Chutou, e o tenente goleiro nem teve
trabalho exceto o de riscar no olho o rumo do objeto. Carimbo no
alumínio atravessado. Susto só. Mais uns minutos poucos, e lá veio ele.
Fez que ia, fingiu que pisava. Soldado, o mesmo de antes, e cabo no
piso. Só correu para o centro da grande circunferência de cal. Mais um
gol na carreira entranhada. Nem ligou para o solo de festa. Estava
acostumado. De novo, a donzela achou o príncipe. Corrida solitária,
grama no alto. Falta! O próprio time fez de escudo o doce negro. “É só
deixar pra ele”, berrou o porteiro. Todos certos. O porteiro e o craque.
E o tenente buscava outra no fundo do caixote de barbante. Nem dez
minutos fazia.
Depois de outras gingadas humilhações e guerreiros
no relvado, o capitão em patente e honra do time aéreo não aguentou. “Ô
Cabo, soldado, vocês tão dormindo? É pr’abater! É pra jogar em pé!”
“Positivo, capitão!” Logo mais uma vítima: o soldado da lateral.
Entortado pelo corpo de mola do negro educado. Mais bronca do capitão.
Ameaça de ficar depois do expediente. Mais dribles, mais xingos. Coisa
impublicável. Mais reboles de canela. Oficiais na horizontal. Desta vez,
ameaça de cela. Nem era fim do primeiro tempo, e o negócio andava feio.
Sol quente e vista suada. Pobre tenente, já praticamente rebaixado de
posto assistindo à bola entrar. “Esse moço é o cão, senhor!” “O senhor é
uma galinha, senhor”, contralançou o líder bravo.
Aquele
falatório de enxofre incomodou o moço. No campo de terra, quando não tem
briga, a turma joga, e tudo acaba numa cumbuca de feijão gordo no bar
da praça. Costumam nem precisar do tal de “fair play”, coisa que aparece
por lá, junto com novas camisas, só em época de eleição. Seis a zero.
Quatro do centroavante e um do auxiliar de estoque. O sexto foi contra. O
susto foi o autor deste, quando o cadete viu o negro brilhante chegar, e
tocou para a meta errada. Fim do primeiro tempo. Um verdadeiro
espetáculo do herói de ébano. Quanto ao capitão, teve de criar novos
palavrões para ver se o time fardado pegava no tranco.
Um pedido
assustou os paisanos, já assombrados com a raridade do vestiário
profissional. A estrela do time pediu para ser zagueiro. Com os punhos
descansando no abdômen cevado, todos concordaram. Água gelada, bexiga
vazia e volta ao campo.
Segunda etapa do junta-junta esportivo.
“Cabo, aquele negão deve estar querendo aprontar alguma”, desconfiou o
sargento rodado. Acertou. O plano do novo defensor tinha motivo nobre.
Uma aula de humildade não pra ele, já doutorado, mas para o comandante
do outro time. O capitão tinha sido poupado dos riscados gloriosos do
primeiro tempo. Pensava ser bom. Escalou-se para o ataque e ficou livre
do confronto hormonal com o dianteiro cor de chocolate. Este mostrava um
sorriso mais largo que o da primeira etapa. O jovem operário defendia
tudo. A pepita parecia sair dos pés dos atacantes e correr para os dele,
qual ímã. A meta do zagueiro nobre deixava de ser o gol, mas outra, e
atrevida.
Com a mudança de posição do artilheiro, o time
perdendo respirava, pois o placar jazia inalterado, liberando mais
militares para a ofensiva. Numa dessas, o capitão driblou o Guengué
motorista, deitou com um vai-que-não-vai o Chucruta faxineiro, chapelou o
Tonho Alcântra vigia e deixou comendo grama o encarregado Pedreira.
Parou a festa justamente no último defensor. Como era de se esperar, a
bola pulou do pé do oficial e colou nos dois do zagueiro de luxo. Em vez
de mandá-la para frente, naqueles fragmentos de segundo, resolveu
tornar-se um mortal pecador que cultiva uma clássica vingança. Pisou na
gordinha, acariciou-a com a sola da chuteira gasta, e, num átimo, jogou a
redonda por entre as pernas da vítima. Desequilibrado, o desaforado
ainda tomou um lençol, dois dribles de letra e um rabo-de-vaca. Veio o
golpe de misericórdia: mais uma passada por entre as canelas. Comandante
prostrado. Despediu-se do couro redondo e o mandou pra frente.
Murmúrios
e risos escondidos nos dois times. No fundo, todos agradaram da aula,
repetida ainda uma meia dúzia de vezes naqueles 45 minutos. O capitão
pendurou as chuteiras ali mesmo. Na segunda-feira, o time armado não
falou mais no assunto. O artilheiro também não.
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Às vezes, inventa verdades.
Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).