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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O presépio é feio


O presépio em si é feio! Feio mesmo! Uma criança que nasce em um cocho, no meio dos animais, num curral! Pai e mãe excluídos, sem plano de saúde, sem teto, sem agasalho e contando apenas com o bafo dos bichos para se aquecerem. As primeiras visitas: um bando de desconhecidos, os então malvistos pastores.

Aos olhos da fé, contudo, o presépio é lindo. Mas, como a legítima espiritualidade, é comprometedor. Após o parto, a mãe envolve o recém-nascido em faixas. O amor cabe em qualquer lugar. Para a decepção dos caçadores cegos de prosperidade, Jesus menino vem pobre, paupérrimo, humilhado, e morre como tal.

É cena desconcertante para quem acha que os sem-tudo são todos vagabundos, e pronto. “E não havia lugar para eles.” Um incômodo para quem, sazonalmente comovido diante do arranjo moldurado por musgos e festões, um dia acaba descobrindo que ainda há crianças nascendo em comedouros de animais, em estábulos, em corredores frios, na rua e em barracos de lona e bambu. Porque não há lugar para eles.

A sagrada estrebaria é um inconveniente aos emocionados com o menino no cocho enfeitado e, ao mesmo tempo, odiosos a quem luta pelos pequenos de hoje não nascerem assim.

Na beleza da fé, um santo, encorajador e feliz Natal!

terça-feira, 15 de julho de 2014

Depois do chocolate, perguntas


Perdoe minha ignorância, mas surgiram algumas perguntas, principalmente depois da sapatada que o Brasil tomou da Alemanha, no dia 8 de julho. Alguém, por favor, dê-me uma luz... Preciso de almas inteligentes que me tirem dessas trevas.

- O Brasil é uma tragédia no futebol e ficou entre os quatro melhores do mundo?
- Desde o "dia seguinte", as manifestações antigoverno voltaram a ser organizadas por quê? Antes tudo estava bem?
- Uma equipe que planeja, não gosta de improvisos tontos e disciplinada teria de perder para outra que é desorganizada e cheia de "gambiarras"?
- É verdade que jogar fora de casa e com a torcida contra é um fator que pode influenciar negativamente o desempenho de um time?
- O sujeito que vive gastando dinheiro na "Nova Guarapari" agora virou inimigo dos “hermanos”?
- Quem virou inimigo dos “hermanos” torcerá para o carrasco do próprio time?
- Os classe-média-disneys vaiaram também o hino da Alemanha, como fizeram com o Chile?
- Os negros da torcida brasileira ainda estão escondidos na ala VIP dos estádios e não saíram ou somos nórdicos mesmo?
- Por que as camisas amarelas não apareceram direito no jogo de Argentina e Holanda? O "povo" não era brasileiro com muito orgulho e com muito amor? (ah, acho que sei a resposta para esta... é porque não eram brasileiros, mas nórdicos mesmo...).
- Por que ainda não colocaram na Dilma e nos "petralhas" a culpa pela goleada?
- Por que nem mesmo o roupeiro ou gandula do Cruzeiro, campeão nacional de 2013 (conquistado, aliás, com folga) e líder do dificílimo campeonato no primeiro semestre de 2014, foi convocado para a Seleção? Será que os jogadores dessa equipe eram tão ruins assim ou a CBF quis "inovar"?
- Por que ninguém mais fala do penta, ganho em 2002, sob a liderança de Felipão? No futebol, como na política e nas artes, a memória também é curta?
- Por que estou falando da Seleção sendo que o meu time é o Guarani de Divinóps?

Até a outra tamanc... quero dizer, o outro jogo da Seleção.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Do tempo em que cantor cantava

Gabriel García Márquez escrevia ao som de sua voz; 45 milhões de discos vendidos, sendo 20 milhões fora do Brasil; teve música cantada em vários idiomas; dividiu o palco com grandes cantores internacionais; primeiro latino-americano a vender mais de um milhão de discos nos Estados Unidos. Naldo, Luan Santana, Lobão, MC Catra? Não! Falo do magnífico Nelson Ned, a quem a crítica mal resolvida e preconceituosa brasileira apenas classificou como "brega". O "Pequeno Gigante da Canção", como o chamou Paulo Gracindo, é do tempo em que, para se gravar alguma coisa, era preciso saber cantar, e bem. Fiquemos de olho em outros preguiçosamente taxados de "bregas" por aí (Odair José, José Augusto, Amado Batista...). Valeu!

sábado, 28 de setembro de 2013

Nosso nome, nossa autoestima

Alessandro Faleiro Marques*

Ninguém melhor do que nós mesmos para saber como um nome é importante. Ele costuma trazer não só a nossa história, mas também a de nossos pais, as escolhas e as inspirações que tiveram antes de nós chegarmos a este mundo de Deus. Mas, quando eles se descuidam, somos condenados a passar a vida inteira soletrando ou ouvindo comentários inconvenientes. Uma irritante e pesada cruz verbal.

Tempos atrás, publiquei no Quase sem Mistério um comentário sobre o nome do principezinho inglês, filho dos badalados William (Guilherme, em português) e Kate (apelido de Catarina). Disse que os brasileiros logo começariam a copiar o nome bebê: George Alexander Louis (Jorge Alexandre Luís). E não deu outra. Agora, os mais “espertos” desenham as letras num pedaço de papel e têm somente o trabalho de entregá-lo ao atendente do cartório; os outros, ainda mais “espertos”, ditam a frase para o coitado do outro lado do balcão e joga para ele a responsabilidade da grafia. A depender do caso, o resultado de ambas as opções pode ser explosivo e, pior, tragicômico.

Estou impressionado com a baixa autoestima dos brasileiros. Temos um dos mais belos e vivos idiomas ocidentais, muito sonoro e suave, com suas inúmeras e ricas variantes. No entanto, muitos de nossos nomes modernos têm origem no inglês, francês, italiano (como o meu, mas ele me encanta) e, quando muito, em latim, russo ou grego. Outros vieram de lugar nenhum. Frutos de puro modismo, mau gosto, idolatrismos, ignorância, caricaturas lexicais, fundamentalismos. Aparecem até apelidos e sobrenomes gringos. São graças sem graça.

Muito além da celebrada antropofagia dos modernistas, alguns prenomes são verdadeira violência contra os bebês. Experimentei constrangimento alheio quando soube de um trabalho de escola. A bem intencionada professora pediu aos alunos que pesquisassem em casa o motivo da escolha de seus nomes. Muitos pais não souberam responder, e os pequenos devolveram em branco o outrora alegre formulário.

Ainda no âmbito escolar, algumas crianças, mesmo em séries mais avançadas, têm dificuldades de grafar como se chamam. Também, diante de tanto k, y, w, h (mudo ou não) e letra dobrada... Não é necessário existir uma lista fechada como em Portugal, mas um pouco de carinho e bom senso faz grande diferença.

Nome de tudo é algo sagrado. É a substância, o substantivo. No Mito da Criação, Deus apresentou ao primeiro homem as criaturas para que este as denominasse. E o Criador respeitou as escolhas de Adão (Gn 2,19-20). Herdamos daí o “nome de batismo”. Por essas e outras, Deus, o Cara, o Todo-poderoso e cheio de bondade, também nos chama pelo nome, por isso devemos caprichar.

Viver é fácil


Para quem gosta de corrigir texto dos outros (nem olhe para mim!), lembro que as regras de ortografia também valem para nomes próprios. Isso vale para pais e profissionais dos cartórios. Outra coisa, alguns podem, sim, ser traduzidos, como de papas e monarcas. Em Portugal e países de língua espanhola, a soberana da Inglaterra é chamada de Isabel, o herdeiro direto é o príncipe Carlos, pai dos príncipes Guilherme e Henrique. O Papa Francisco (em português e espanhol) atende por François, Francesco, Franciscus, Francis, Franciszka e Franziskus, respectivamente em francês, italiano, latim, inglês, polonês e alemão.

E mais, não somos obrigados a pronunciar como em outro idioma. É um equívoco, por exemplo, rir de quem diz “Freudi” (em vez de Froidi) ao se remeter ao Pai da Psicanálise. Por aqui, as letras “e” e “u”, quando juntas, têm som de “eu” e não de “ói”. Desconheço lei que nos obrigue a saber alemão. Para testar, experimente pedir a estrangeiros a leitura de alguns nomes brasileiros. Surpreenda-se! A baixa autoestima cultural também se vê no mundo acadêmico.

Uma curiosidade: depois do falecimento de um cidadão, podemos adaptar a grafia do nome e sobrenome para a norma atual. Portanto, Raphael pode virar Rafael, sem estresse! Como diz meu amigo Jefferson (carinhosamente chamado por nós de Genésio), “Viver é fácil, nós é que complicamos”.

Eu e alguns amigos levantamos alguns nomes em listas, notícias e até obituários (sim, nossas crianças morrem) (veja a seguir). Um espetáculo de criatividade de uns e de gosto pra lá de duvidoso em outros; visto, é claro, pelo âmbito do idioma. Quando foi possível, procurei separar certos duplos ou triplos. Deixo ao seu engenho uni-los. Meus sinceros respeitos aos donos e meus protestos a alguns dos “adãos” de hoje.

Aia (no dicionário, veja o significado)
Albenirson
Aleçandro (a intenção da moça do cartório foi boa)
Aleksander (Alecsander, Alexsandre, Alexssander...)
Alessandro (você acha que ficaria de fora desta lista?)
Alexanderson
Carolinny (e derivados: Karollini, Karollyny, Carolliny...)
Cauan (e derivados: Cawã, Cauãm, Cauã...)
Cinddykelli
Cindy Kelly (a mãe pediu que as palavras fossem lidas juntas e rapidamente)
Cleidiney (também Kleydinney, Kleidinei, Creiddiney)
Clis Albert (achei também Chris Alberty e Crizalbertty)
Creydinei
Creópatra
Cristhynna (Kristtyna, Khristynna...)
David (em português, há muito tempo, não é mais necessário o “d” final)
Dedislayne (também Dedysllane e Dadislanny, obviamente tudo com pronúncia em inglês)
Diana (é claro que em pronúncia inglesa parecida com “Dæian”, e dezenas de derivados: Dyanne, Dianny, Dayane, Daiani, Deianne, Dayyanny...)
Dieghytto
Drynielle
Ednelson (também Edynewson)
Elleyr
Erectina
Eryk (e derivados Hériki, Ériki, Érickky, Heryky... os acentos foram por minha conta)
Farmy
Franklin (um brasileirinho da gema)
Gernerson
Gideone
Grayce
Grauciney
Greis Kele (e os nobres Creicikely, Greyciquelli)
Isabella Karolliny
Izabbely (e derivados Ysabella, Yzabelly...)
Jane Kelly
Jannaynnah (Janaína)
Jennyffer (Gennyfer...)
Jessyka (e derivados Géssika, Jhéssica, Jecica, Gecica)
Jhenifi
Jhonatanael
John Kennedy (é lógico que não poderia faltar um)
Jocycrey (Jocicley, Jociklei: quando eu puder, farei um comentário sobre este nome)
Kace (também Keici, Keyce, Keyccy...)
K.L.Jay
K.S.Jay (mesma família do anterior)
Kate Suellen
Kathlin (e também Kathllyn e muitíssimos outros derivados)
Kayanne
Kaylane Kerolin
Kellya (achei com a pronúncia Kélia e Kelía)
Kimberlly
Letisgo (pronuncia-se como o inglês “let’s go!”)
Leydianny (também Leidianne, Leydiano, Leidianno, Leyddyanne...)
Mardenson
Marllony
Marlon Filipy
Mayki
Maykssuel (e centenas de bilhões de derivados)
Maykou Jékson (é claro que o rei do pop não ficaria de fora!)
Mygnocca (Minhoca, em nossa pronúncia)
Nathanaelsson
Neon
Neviton (pronuncia-se Néviton)
Niccolly (e também Nicolly, Nycolli, Nyccolly...)
Nittyelli
Ozzeny
Paolette (masculino)
Pollyanna (Pollianny e trilhões de derivados que não caberiam aqui)
Rikelme Wilkker (e também Riquellmi, Riquelmmy...)
Rizzia
Ronald Hector (também Ronnaldy, Ronalddy...)
Ruan (derivado do espanhol Juan. Também vi Juán, Xuan, Ruwann)
Scoth Traback
Suenny (também Swene, Suweny)
Syndycley (e variantes Cindycley e Sindicrey)
Talysson
Thalles Fellippe
Víctor (não se deveria acentuar nesse caso)
Waldisney (inspirado em Walt Disney, mas com som de “v” no início; também achei Valdisnei e Ualddisney)
Walliton (também Wallyton, Wallitson...)
Wandeyrson (pronúncia inicial com “V”)
Yulária
Yzabbel (e derivados Isabbel, Ysabbel e até Usabell)
Zenoelson

Deixe seu comentário, contando se você conhece algum nome que merece entrar nessa lista. Também você pode dizer se gosta de seu nome ou se você irá se inspirar nesse rol.


* Professor, revisor de textos e especialista em Direito Público.


domingo, 28 de julho de 2013

O nome do príncipe

Saiu o nome do coitadinho do príncipe herdeiro do trono inglês: Jorge Alexandre Luís. Faço ideia o tanto de brasileiro que começará a colocar George Alexander Louis nos indefesos filhos. Em todo caso, é menos pior do que Valdisney (Walt Disney) ou algo semelhante. E viva a antropofagia brasileira. Tem mais: esse negócio de dizer que nome não se traduz é coisa também de brasileiro. Lá na terrinha lusa, por exemplo, sem a menor cerimônia, falam da rainha Isabel, do príncipe Carlos, da neomamãe princesa Catarina (aquela, casada com o príncipe Guilherme). Não tem estresse. Depois falam que os trouxas são os nossos irmãos portugueses. Experimente também ver como funciona em espanhol. Para não dizer que não provo de meu próprio veneno, digo que, em nosso idioma, meu nome é Alexandre, mas sou feliz com a versão italiana com a qual fui batizado. Deus nos chama é por nosso nome. Que nossos pais caprichem. Pronto, falei!

Veja também

Nosso nome, nossa autoestima

 

domingo, 20 de janeiro de 2013

Festa de São Sebastião na Comunidade de Marimbondos (Carmo do Cajuru-MG)

Conheci finalmente o povoado de Marimbondos, no Município de Carmo do Cajuru-MG. Era exatamente o dia da festa de São Sebastião (20 de janeiro), padroeiro da comunidade. Veja o que encontrei por lá.








sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Os "best-sellers" e os clássicos

Uma dica para quem quiser comprar livros (sobretudo os de porta de livraria, a maioria deles de autores estrangeiros). Antes de fechar negócio, pense se a obra será lembrada e até estudada daqui a cinquenta, cem anos. Se você achar que não, não compre nada ou vá a uma biblioteca pegar algum clássico. Não use como critério o sujeito ser ou não um "imortal" da Academia Brasileira de Letras ou de qualquer outra. Pronto, falei!

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Paulinho da Viola acordou nervoso

Certo dia, o Paulinho da Viola acordou bravo com alguma coisa e, no alto de sua ira cavalheira, fez isto:

Argumento

Tá legal
Tá legal, eu aceito o argumento
Mas não me altere o samba tanto assim
Olha que a rapaziada está sentindo a falta
De um cavaco, de um pandeiro ou de um tamborim

Sem preconceito ou mania de passado
Sem querer ficar do lado de quem não quer navegar

Faça como um velho marinheiro
Que durante o nevoeiro
Leva o barco devagar


Certo dia, um fanqueiro qualquer acordou revoltadinho com qualquer coisa inútil e fez isto:

Fala mal de mim

Não olha pro lado quem ta passando é o bonde
Se ficar de caozada a porrada come

As mina aqui da área no baile se revelam
Não importa o que eu faça
Vira moda entre elas.

Fala mal do meu cabelo e da minha maquiagem
O coisa escrota
Pode falar a vontade.

Essa mina recalcada não arruma um namorado
Não meche com o meu
Não sou de mandar recado.

Fala mal de mim, na roda dos amigos
Que coisa garota
Eu nunca fiz nada contigo.

Se entrar no meu caminho
Vai ficar perdida
Porra tá molhada
Se mete na sua vida.

Não adianta
Não tem vergonha na cara
Fala mal de mim
Mas é minha fã encubada

O recalcada escuta o papo da Beyoncé:

Não olha pro lado quem ta passando é o bonde
Se ficar de caozada a porrada come


NADA MAIS A DECLARAR!

sábado, 9 de outubro de 2010

Ouvi o canto dos antigos

Alessandro Faleiro Marques*

Para protesto de meus amigos, que ficaram semiprivados de minha audiência nas vitais microassembleias etílicas de sexta-feira à noite, deixei-me ser enfeitiçado pelo canto da sereia linguística. Meus ouvidos encheram-se de palavras sonoras como declinação, acusativo, particípio futuro, gerundivo e muitas outras. E, impelido pela genética de minhas células curiosas, já estou de pé quase todo sábado, bem cedo. Com ou sem gosto de cabo de guarda-chuva na boca, coloco minha maletinha debaixo do braço e vou para o curso de latim.

Já estou quase no fim, e isso me deixa um pouco mais atrevido para opinar sobre a tal língua-mãe. A primeira coisa é questionar a simplória ideia de o idioma de Virgílio ter dado origem ao português. Não é bem assim. Entre outros “empréstimos”, os romanos pegaram muito da gramática dos gregos, cuja brilhante cultura nem a poeira das sandálias dos centuriões conseguiu ofuscar. Quem é vítima desse clichê parece ter se esquecido da vasta contribuição indígena, africana, árabe e anglo-saxônica, por exemplo, ao nosso léxico. Seja como for, admito: a cada aula, fico mais impressionado com a nossa herança do Lácio.

Apesar de ser loucura para os de fora, considero esse estudo um bom programa. Passo um bom tempo tentando descobrir e reordenar vocábulos metamorfoseados conforme sua função na frase. Posso garantir, é muito melhor do que palavra cruzada. Cérebro funcionando, dizem, ajuda a combater doenças como o mal de Alzheimer, por isso o latim é, no mínimo, um remédio anticaduquice.

Os termos latinos são uma mescla de exótico e sagrado, selvagem e belo. Enquanto as palavras se deixam amansar para nosso idioma, sinto uma entorpecente sensação de crescimento, de respeito, de um refinado “sei-que-nada-sei”.

Outro encanto foi apreciar a Vulgata, a tradução do texto bíblico para o latim conduzida por São Jerônimo. Até onde eu vi, o método é um exemplo para os escritores de hoje. O santo e doutor da Igreja procurou divulgar, de modo muito claro, uma mensagem profunda. Tudo sem firulas, sem eruditismos. Para ele, quanto mais gente conhecesse a Boa-nova, melhor. Também me impressionei com a sabedoria das fábulas de Fedro, uma legítima coletânea de “causos” atualizáveis no dia a dia.

O idioma em si é um espetáculo à parte. Em poucas palavras, aquele povo dava o recado. O latim pede raciocínio, paciência e uma mesa enorme, para que se abram livros e livros para consulta simultânea, uma forma de fugir das traquinagens dos vários falsos cognatos.

Com esse estudo, caiu, pelo menos para mim, mais um mito. O fato de estudar latim não faz ninguém entender o português, até porque nós, falantes nativos, já sabemos este. Ao contrário, conhecer um pouco da nossa gramática me ajudou muito a encarar as aulas da manhã de sábado. Os professores também me surpreenderam. São de bem com a vida, jovens e transmitem segurança. Bem diferente de alguns de outrora, ranzinzas e adoradores do antigo decoreba.

Minha decepção foi ver o descaso que as editoras brasileiras têm com o idioma de Ovídio. Uma delas, entre as menos acomodadas, simplesmente publicou um fac-símile de um dicionário da década de 1920. Em caminho inverso a outros países, como os da Europa, há pouca coisa nova por aqui. Por isso, vida longa aos sebos! Outra chatice foi ter de justificar para alguns o motivo de meu estudo. Ora, pois sou das letras e fui escolhido por elas! E o papo de língua morta? Vejo o latim, junto com outros sistemas antigos, sobreviver em nossas palavras e no cotidiano de milhões de pessoas em todo o mundo.

Hoje existe uma estrutura bem montada para não aprendermos com os mais velhos. A principal lição do curso, contudo, é o retorno ao antigo costume de ouvir o outro, mesmo que este tenha vivido dezenas de séculos atrás. Que a sereia continue a cantar.


 
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Campanha contra a intoxicação digital

Alessandro Faleiro Marques*

Como educador, cada vez mais me convenço de que existe o “emburrecimento”, ou seja, o lado oposto da aprendizagem, do crescer não só acadêmico, mas de espírito e sabedoria. Obviamente, nos meus tempos de faculdade, nenhum dos meus mestres ousou tocar no assunto do processo da desinteligência. Isso nos desanimaria? Seria um segredo só para os já iniciados?

Uma das causas do mal é a ingenuidade, o deslumbre débil diante de certas inovações. Outro dia, li um artigo dizendo que adiantou pouquíssimo encher de computadores as escolas. Fiquei impressionado com o fato de isso ter aumentado os casos de déficit de atenção. Em resumo, o projeto de abarrotar de aparelhos as salas de aula só serviu para dar mote para propaganda governamental, atrair pais e alunos (chamados de clientes pelas grandes e pequenas redes de colégios) e para encher a cabeça de crianças e adolescentes de muita, muita toxina digital. São tantas informações que os neurônios da moçada estão dando curto-circuito. O intento, de princípio bom, ainda saciou o desejo de orgasmo pedagógico de alguns mais “empolgados”, achando que a simples eletronização didática colocaria a escola e os jovens “ligados ao mundo e à modernidade”.

Apesar do encantamento, houve pouco ou nenhum preparo dos educadores para melhor aproveitarem o recurso, sobretudo para o uso da internet. Os jovens também não foram preparados. Adolescentes, crianças e adultos ficaram apenas boquiabertos com a tecnologia e, estéreis, entregaram-se a ela. Valorizou-se muito o meio, não o fim.

O excesso de dados entope a cabeça das pessoas. É um fenômeno comum na Pós-modernidade, tempo marcado pela rapidez, mosaiquices e descarte fácil de coisas, ideias e pessoas. Cabeça entupida é mundo caótico, não contemplativo... existindo só porque nasceu.

Em vez de só reclamar, ouso sugerir uma “Campanha de Desintoxicação Digital”. Selecione suas leituras, seja frio. Descarte o inútil, veja o essencial. Faça o jejum cibernético e veja se realmente é essencial para sua vida a avalanche de textos, piadas, álbuns, fofocas, gráficos e infográficos.

Sejamos seletivos, questionadores e preocupemo-nos em colocar no devido lugar o útil mundo digital. Diga sim ao olho no olho, ao inteligenciamento, às luzes. Desintoxique-se!


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O fim do mundo da inteligência

Alessandro Faleiro Marques*

Dizem que a melhor forma de divulgar uma obra é falar mal dela. Os produtores pulam de alegria quando um comunicador, um líder, um educador desaconselha algum trabalho. Assim, recomendo: "assista" ao filme “2012”. Depois não reclame, pois eu avisei. Prepare-se para um grande arrependimento de ter gasto seus suados reais em mais uma imbecilidade, em vez de tomar aquele chope gelado ou comer algo gorduroso em um bar e se divertir com as caras decepcionadas saindo das salas depois de pagarem caro para ver mais uma asneira do circuitão comercial.

O filme é uma ofensa à mais medíocre inteligência. A imprensa anda dizendo que o autor, Roland Emmerich, gosta muito de trabalhar com clichês, mas vejo por outro lado: faltam mesmo é criatividade e leitura. Nem os efeitos visuais são os melhores já produzidos por Hollywood, sem contar as ideologias pra lá de ridículas mostradas na telona.

A destruição do mundo é causada pelo superaquecimento do núcleo da Terra. Uma piada! O superaquecimento está aqui, na parte de cima. No mundo real, a Terra é a vítima. Outra blasfêmia nas quase duas horas e quarenta minutos de tempo perdido é o fato de o G8, o grupo dos mais poderosos países do mundo, serem os salvadores dos humanos (os que podem pagar muito em euros, é claro!). Na verdade, o grupo de ricos é o maior responsável pelo colapso do planeta. E uma crítica a ser aprofundada por algum intelectual: a China aparece, em "2012", como mera executora dos projetos. Outra parte chinfrim são os helicópteros, em plena neve, levando animais africanos para as tais arcas. Senhor Emmerich, hoje já existe tecnologia para armazenar o código genético, sobrando mais espaço na geringonça flutuante.

A espiritualidade, um patrimônio humano, também é ridicularizada na baboseira. O piloto orando e mostrado como um imbecil, o Cristo Redentor tombando pela fúria da “natureza” e a Basílica de São Pedro caindo, em um único bloco, sobre os fiéis que recebem a derradeira bênção pontifícia. Quanta tolice! Se o autor tivesse o menor conhecimento de religião, saberia que, em todas (as sérias), a mensagem sempre é de esperança. Este mundo acaba, e de forma cinematograficamente catastrófica, só para os incrédulos.

Fica um elogio (só um, para minha tristeza): o marketing social. Diferente dos autores de nossas novelas, os americanos sabem fazê-lo muito bem. Os negros têm papel de destaque, sem precisar fazer discursos sobre racismo. Isso aconteceu também em "Independence Day", do mesmo autor. A sempre esquecida África sobrevive à catástrofe e, nela, a humanidade, ou melhor, quem pagou passagem nas arcas, recomeçará.

O cinema e outras formas de arte não precisam mostrar a realidade. É diversão e nada mais. No entanto, desde que o tema trabalhe com ideologias claras, o público tem direito de questionar a obra. Nunca é demais lembrar: por trás e na frente da tela, há pessoas. Comunicação é troca e, se o nosso cotidiano fornece subsídios, podemos dialogar com quem se inspira nele.

Um segredo: estou torcendo para esse filme ganhar uma sacola cheia de estatuetas do Oscar. Isso apenas confirmaria minha tese de que esse prêmio, como o próprio filme, reconhece menos a obra e mais a propaganda do dominador.

Poderia gastar mais linhas comentando 2012, mas não quero cair no mesmo erro do autor. Longe de mim tomar o tempo de alguém.


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A Guerreira que devolveu a música aos brasileiros

Alessandro Faleiro Marques*

Nestas duas últimas décadas, quem vê cantoras levando multidões a estádios, parques de exposição e casas de espetáculo nem imagina como foi difícil as mulheres conquistarem também o espaço dos palcos. Desde a magnífica Chiquinha Gonzaga e talvez outras que viveram antes dela, enterradas bem fundo pela ignorância histórica, muitas vezes as artistas eram desacreditadas.

Entre as décadas de 1960 e início da de 1980, a história resolveu mudar. Nas ladainhas em latim entoadas pelo coro da matriz de Caetanópolis, em Minas Gerais, ouvia-se a voz da menina Clara Francisca Gonçalves Pinheiro. Com o sobrenome artístico herdado da mãe, passou a ser chamada de Clara Nunes. Depois de muito sucesso no rádio e inspirada por vozes de outras grandes mulheres, como de Carmem Costa, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira e Ângela Maria, Clara gradualmente se tornou uma espécie de embaixadora da música brasileira para os próprios brasileiros.

A missão da Guerreira veio em uma época particularmente difícil para a nossa música popular. Por motivos nem sempre nobres, nos anos 60 e 70, as canções estrangeiras, sobretudo as estadunidenses, esmagavam muitos talentos nacionais e devassavam os espaços na mídia. Muitos sucessos em português apresentados por artistas do Brasil nada mais eram do que “releituras” das músicas compostas por artistas dos EUA ou da Inglaterra. Por ignorância ou sede de sucesso, muitos tinham pseudônimos em inglês e nessa língua cantavam. Tudo sob a conivência do público, faça-se justiça.

Por outro lado, cheia de alegria, com seus balangandãs, levando o chocalho na canela, e paramentada com o vestido branco da umbanda, Clara Nunes relembrou ao povo: existia samba além carnaval e forró além São João. Com Sivuca, ela contou ao Brasil como era a Feira de Mangaio, tudo ao som de uma contagiante e puríssima sanfona nordestina. Na voz dela, o Brasil ouvia em samba e coral afro um dos mais célebres lamentos nacionais, o Canto das Três Raças. Quem melhor do que Clara poderia interpretar a comparação entre o desfile da Portela e uma procissão?

Alguém agora pode estar lembrando-se agora do papel de Elis Regina. A missão de Elis foi a de refinar a música, lançando novos nomes e um jeito caloroso de interpretar. Por isso, ainda hoje, ela atrai mais o público “cult”. Não é muito o caso de Clara Nunes. Esta também tinha uma interpretação maravilhosa, no entanto fez mais um trabalho de resgate de algo que existia, mas andava esquecido pelo povo. Por providência divina, Clara e Elis viveram na mesma época e partiram cedo, deixando, cada uma a seu modo, uma importantíssima contribuição para a cultura brasileira.

A própria vida de Clara Nunes é a principal mensagem que ela nos dá. De menina do interior a operária e grande cantora popular, a primeira a vender mais de cem mil cópias, quebrando um tabu, a “tal mineira” foi uma legítima brasileira. A moça adotada pelo povo ainda nos quer chamar a atenção para as vozes divinas de homens e mulheres que a mídia insiste em silenciar. Ela nos pede um olhar mais carinhoso para as nossas raízes preciosas nestes tempos de muito barulho, falta de melodia e de criatividade. Quem melhor poderia ser chamada de Guerreira?


* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Novo Acordo Ortográfico: mais polêmica depois do VOLP


*Alessandro Faleiro Marques

Já começa a circular a quinta edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), elaborado pelos “imortais” da Academia Brasileira de Letras (ABL). A notícia é excelente, já que poderá pôr um ponto final em várias discussões entre profissionais e amantes da língua de Camões, Machado de Assis, Fernando Pessoa e Guimarães Rosa (deste também!). Note: poderá! Ao se fazer um rápido confronto entre os dicionários e manuais lançados recentemente, pode-se ver que foi perdido muito do esforço dos autores que tentaram desbravar o Novo Acordo Ortográfico .

Como quase toda grande mudança, há tumulto mesmo, mas, desta vez, as coisas estão mais tenebrosas. Diferente dos novos dicionários, “pé de moleque” não tem mais hífen para a ABL, tanto faz ser o delicioso doce quanto a parte do corpo de um menino travesso. O mesmo aconteceu com “dia a dia”, expressão que será usada sem hífen no sentido de cotidiano e no de sequência de dias.

Diante dessas e de muitíssimas outras “novidades”, ficam várias dúvidas e umas poucas certezas. Entre os questionamentos, pode-se perguntar: se o Novo Acordo estava elaborado há tanto tempo, desde a década de 1990 no mínimo, por que a ABL esperou que ele entrasse em vigor para somente depois lançar o VOLP? Por que não o publicou com a mesma voracidade que os dicionaristas? Será que faltou a alguns “imortais” a sensibilidade de ver que a maioria dos falantes está no mundo de mortais, em que a agilidade é um valor?

A verdade comprovável até agora é que os mais prejudicados (pra variar) foram os consumidores, que correram para manter-se atualizados com a nova ortografia e compraram gramáticas, manuais, dicionários e outras publicações. Os editores (exceto os do VOLP) também foram novamente penalizados. Depois de refazer os livros, agora terão de readaptar as obras ao novo vocabulário da ABL. Nada mais inconveniente nestes tempos da anunciadíssima crise.

As polêmicas não ficam por aí. Envolvem também política. Portugal, que parece não estar com tanta pressa em alterar sua ortografia, mesmo tendo assinado o Novo Acordo, não gostou muito da iniciativa brasileira. Se, por acaso, os “imortais” do país de Eça de Queirós lançarem o próprio Vocabulário Ortográfico (o que não se pode duvidar), estará decretado o insucesso dos objetivos principais da atualização, que seriam tentar padronizar a escrita e fortalecer a língua portuguesa no cenário mundial. Seguindo a tendência, os lusófonos da África, seguindo ou Portugal, ou Brasil, ou a própria autodeterminação linguística, ajudariam a dividir o reino, enfraquecendo-o. Será que esse problema foi discutido durante os chás dos acadêmicos?

Aqui uma ousadia: aos “imortais” vai um agradecimento e uma súplica. O muito obrigado vai pela dedicação do novo VOLP “aos que usam a língua portuguesa como bem comum” e pelo convite “a colaborar com achegas, sugestões, críticas e correções”, tudo para o aperfeiçoamento da obra. Caros acadêmicos, realmente essa obra é grandiosa e será útil. Agora, por Deus, este o verdadeiro imortal, não corrijam mais nada.


*Professor, revisor de textos e redator


Texto originalmente publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com.)