Alessandro Faleiro Marques*
Já
estou avisando: se acontecer um barulho perto de mim e se houver anjos
voando sobre minha cabeça, “subindo e descendo em todas as direções”,
vou tirar do bolso meu bodoque (ou estilingue, como queira) e mandarei
pedra para acertar bem no meio das asinhas deles. Não quero “anjos
voando neste lugar”, desejo anjos com os pés no chão.
Há poucos
dias, ao procurar o posto de saúde de meu bairro para me vacinar contra a
tal gripe H1N1, dei-me com a cara no portão. Apesar de ser pouco mais
de 16 horas, o porteiro da unidade fechou as portas para quatro
mulheres, meia dúzia de crianças, para mim e meu pai. Minutos antes, um
senhor agredido verbalmente pelo porteiro foi embora, ameaçando chamar a
imprensa. Disseram estar lotado o posto, não podendo entrar mais
ninguém. Na faixa colocada no muro e retirada minutos mais tarde, estava
claro: atendimento das 8h às 17h. Quando dei por mim, estava acabando
de convencer à atendente da Polícia que os militares deveriam nos
ajudar.
Depois da chegada dos PMs, fomos vacinados (o posto
estava vazio). Para minha desagradabilíssima surpresa, dos poucos
servidores públicos que lá estavam, alguns frequentavam a paróquia, cuja
matriz está bem em frente ao centro de saúde. Quando me reconheceram
como um membro da comunidade religiosa, esticaram sorrisos e adocicaram a
voz. Seguindo o costume interiorano, cumprimentei-os, mas assumo: não
fiz a menor força de colocar tempero na resposta. Eles, e não o governo,
estavam envolvidos em dificultar o nosso acesso ao medicamento. Essas
pessoas costumam levantar os braços para “louvar o Senhor”, da forma
mais ruidosa e alienada possível, mas no trabalho ignoram Jesus, o Deus
feito homem, que cura e é avesso à injustiça.
Não sou santo, mas
me senti como diante de “cadáveres espirituais”, mortos em espírito,
pelo menos naquele caso. Lembrei-me de uma contundente passagem da Carta
do Apóstolo Tiago (2,26): “Assim como o corpo sem o espírito é morto,
assim também a fé sem a prática é morta”. Gostam mesmo é de “fazer
barulho para Jesus”, como dizem, e só. Vi foi preguiça, descaso com
mulheres e crianças, coisa de pecadores profissionais, gente com fé vã
(já disse: também não sou santo, apesar de querer ser um, de preferência
sem morrer).
Uma das fases mais gloriosas do cristianismo é a
das catacumbas, na clandestinidade da Igreja primitiva. Ser batizado era
assumir estar com os dias contados. Tornar-se bispo ou Papa era
buscar o martírio. Como antes, ter fé exige coragem. Diferente do
pensamento de muitos, é difícil ser cristão. É um olho em Deus e outro
no próximo, como sendo o próprio Pai-Mãe divino.
Quem anda
procurando seres alados nos tetos precisa saber: os primeiros anjos
somos nós. Não temos asas, às vezes, nem sabemos orar. Mas devemos ser,
na prática, os alegres anunciadores-praticantes da boa notícia divina.
Atenção anjos que descem do céu, cuidado com o meu bodoque!
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Vou jogar pedra nos anjos
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
O crime do papel colorido
Alessandro Faleiro Marques*
Chegara o dia. Casa vazia. Os filhos e os netos viajando, como previra. Nos últimos tempos, a senhora, respeitável, andava com um semblante de leve mudado. Não era uma linha a mais do bisturi do tempo, tampouco o prenúncio de outro ataque aos rins, evento comum desde que perdeu o marido. Pelo contrário, a senhora espichava mesmo era um sorriso no rosto. Atrevido tal vilã de novela das seis. Se a filha mais velha fosse menos voada, certamente notaria alguma coisa para acontecer.
Exímia cozinheira, a doninha andava demonstrando certa preguiça em manipular os temperos, substâncias quase mágicas em suas mãos. Havia um certo silêncio pela casa. Aumentou-se apenas o ruído das pancadas estranhas e impacientes nas panelas. Multiplicaram-se as quedas dos copos de vidro. Outrora zelosa, não evitou que o ferro queimasse a camisa do filho. Nem se importou com o esbravejar do rapaz. Antes isso era motivo de lágrimas pseudorresignadas; agora, o palavreado servia apenas para desentupir os ouvidos cansados. Até uma janela esqueceu aberta, fugindo do senso comum de muitos idosos. De notório, maquinava algo.
Acordou diferente na sexta-feira. Mais tarde. Bem depois do nascer do sol. Enfim, hoje, poria real o projeto. A casa só dela. Olhava amiúde no relógio. Para si, contentou-se em esquentar apenas um arroz com meio ovo mexido. Nada mais. Vez ou outra, consultava de rebarba na gaveta um papel colorido. Mais tarde, ela o colocou na frente do avental limpo. As horas custavam. Naquele dia, não estava incansável. Deixou-se aconchegar no sofá. Cochilou. Pulou cinco minutos depois, talvez seis.
Despudoradamente, tirou o papel do bolso. Pelo ritmo aumentado dos movimentos, o tempo parecia chegar. Sol escondido. Janela agora cerrada. Respirou fundo. Deu um passo rumo ao telefone. Respirou de novo, curto. Mais um passo. O descarado papel estava todo aberto agora. Procurou nele o círculo marcado de caneta falha quinze dias antes. Logo acima, outro sinal, sobre um número. Sentou-se ao lado do telefone. Aprendera a usar o aparelho aquelas semanas, vendo de longe os netos. Tirou do gancho. Respirou forte. Conferiu o rabisco. Discou. Silêncio. Espera. “Quem fala?” “Olá, senhora! A que devo a honra da novidade?” “Filho, faça o favor, mande para mim agora o sanduíche número sete e capriche no defumado.”
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).
Chegara o dia. Casa vazia. Os filhos e os netos viajando, como previra. Nos últimos tempos, a senhora, respeitável, andava com um semblante de leve mudado. Não era uma linha a mais do bisturi do tempo, tampouco o prenúncio de outro ataque aos rins, evento comum desde que perdeu o marido. Pelo contrário, a senhora espichava mesmo era um sorriso no rosto. Atrevido tal vilã de novela das seis. Se a filha mais velha fosse menos voada, certamente notaria alguma coisa para acontecer.
Exímia cozinheira, a doninha andava demonstrando certa preguiça em manipular os temperos, substâncias quase mágicas em suas mãos. Havia um certo silêncio pela casa. Aumentou-se apenas o ruído das pancadas estranhas e impacientes nas panelas. Multiplicaram-se as quedas dos copos de vidro. Outrora zelosa, não evitou que o ferro queimasse a camisa do filho. Nem se importou com o esbravejar do rapaz. Antes isso era motivo de lágrimas pseudorresignadas; agora, o palavreado servia apenas para desentupir os ouvidos cansados. Até uma janela esqueceu aberta, fugindo do senso comum de muitos idosos. De notório, maquinava algo.
Acordou diferente na sexta-feira. Mais tarde. Bem depois do nascer do sol. Enfim, hoje, poria real o projeto. A casa só dela. Olhava amiúde no relógio. Para si, contentou-se em esquentar apenas um arroz com meio ovo mexido. Nada mais. Vez ou outra, consultava de rebarba na gaveta um papel colorido. Mais tarde, ela o colocou na frente do avental limpo. As horas custavam. Naquele dia, não estava incansável. Deixou-se aconchegar no sofá. Cochilou. Pulou cinco minutos depois, talvez seis.
Despudoradamente, tirou o papel do bolso. Pelo ritmo aumentado dos movimentos, o tempo parecia chegar. Sol escondido. Janela agora cerrada. Respirou fundo. Deu um passo rumo ao telefone. Respirou de novo, curto. Mais um passo. O descarado papel estava todo aberto agora. Procurou nele o círculo marcado de caneta falha quinze dias antes. Logo acima, outro sinal, sobre um número. Sentou-se ao lado do telefone. Aprendera a usar o aparelho aquelas semanas, vendo de longe os netos. Tirou do gancho. Respirou forte. Conferiu o rabisco. Discou. Silêncio. Espera. “Quem fala?” “Olá, senhora! A que devo a honra da novidade?” “Filho, faça o favor, mande para mim agora o sanduíche número sete e capriche no defumado.”
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
O fim do mundo da inteligência
Alessandro Faleiro Marques*
Dizem que a melhor forma de divulgar uma obra é falar mal dela. Os produtores pulam de alegria quando um comunicador, um líder, um educador desaconselha algum trabalho. Assim, recomendo: "assista" ao filme “2012”. Depois não reclame, pois eu avisei. Prepare-se para um grande arrependimento de ter gasto seus suados reais em mais uma imbecilidade, em vez de tomar aquele chope gelado ou comer algo gorduroso em um bar e se divertir com as caras decepcionadas saindo das salas depois de pagarem caro para ver mais uma asneira do circuitão comercial.
O filme é uma ofensa à mais medíocre inteligência. A imprensa anda dizendo que o autor, Roland Emmerich, gosta muito de trabalhar com clichês, mas vejo por outro lado: faltam mesmo é criatividade e leitura. Nem os efeitos visuais são os melhores já produzidos por Hollywood, sem contar as ideologias pra lá de ridículas mostradas na telona.
A destruição do mundo é causada pelo superaquecimento do núcleo da Terra. Uma piada! O superaquecimento está aqui, na parte de cima. No mundo real, a Terra é a vítima. Outra blasfêmia nas quase duas horas e quarenta minutos de tempo perdido é o fato de o G8, o grupo dos mais poderosos países do mundo, serem os salvadores dos humanos (os que podem pagar muito em euros, é claro!). Na verdade, o grupo de ricos é o maior responsável pelo colapso do planeta. E uma crítica a ser aprofundada por algum intelectual: a China aparece, em "2012", como mera executora dos projetos. Outra parte chinfrim são os helicópteros, em plena neve, levando animais africanos para as tais arcas. Senhor Emmerich, hoje já existe tecnologia para armazenar o código genético, sobrando mais espaço na geringonça flutuante.
A espiritualidade, um patrimônio humano, também é ridicularizada na baboseira. O piloto orando e mostrado como um imbecil, o Cristo Redentor tombando pela fúria da “natureza” e a Basílica de São Pedro caindo, em um único bloco, sobre os fiéis que recebem a derradeira bênção pontifícia. Quanta tolice! Se o autor tivesse o menor conhecimento de religião, saberia que, em todas (as sérias), a mensagem sempre é de esperança. Este mundo acaba, e de forma cinematograficamente catastrófica, só para os incrédulos.
Fica um elogio (só um, para minha tristeza): o marketing social. Diferente dos autores de nossas novelas, os americanos sabem fazê-lo muito bem. Os negros têm papel de destaque, sem precisar fazer discursos sobre racismo. Isso aconteceu também em "Independence Day", do mesmo autor. A sempre esquecida África sobrevive à catástrofe e, nela, a humanidade, ou melhor, quem pagou passagem nas arcas, recomeçará.
O cinema e outras formas de arte não precisam mostrar a realidade. É diversão e nada mais. No entanto, desde que o tema trabalhe com ideologias claras, o público tem direito de questionar a obra. Nunca é demais lembrar: por trás e na frente da tela, há pessoas. Comunicação é troca e, se o nosso cotidiano fornece subsídios, podemos dialogar com quem se inspira nele.
Um segredo: estou torcendo para esse filme ganhar uma sacola cheia de estatuetas do Oscar. Isso apenas confirmaria minha tese de que esse prêmio, como o próprio filme, reconhece menos a obra e mais a propaganda do dominador.
Poderia gastar mais linhas comentando 2012, mas não quero cair no mesmo erro do autor. Longe de mim tomar o tempo de alguém.
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).
Dizem que a melhor forma de divulgar uma obra é falar mal dela. Os produtores pulam de alegria quando um comunicador, um líder, um educador desaconselha algum trabalho. Assim, recomendo: "assista" ao filme “2012”. Depois não reclame, pois eu avisei. Prepare-se para um grande arrependimento de ter gasto seus suados reais em mais uma imbecilidade, em vez de tomar aquele chope gelado ou comer algo gorduroso em um bar e se divertir com as caras decepcionadas saindo das salas depois de pagarem caro para ver mais uma asneira do circuitão comercial.
O filme é uma ofensa à mais medíocre inteligência. A imprensa anda dizendo que o autor, Roland Emmerich, gosta muito de trabalhar com clichês, mas vejo por outro lado: faltam mesmo é criatividade e leitura. Nem os efeitos visuais são os melhores já produzidos por Hollywood, sem contar as ideologias pra lá de ridículas mostradas na telona.
A destruição do mundo é causada pelo superaquecimento do núcleo da Terra. Uma piada! O superaquecimento está aqui, na parte de cima. No mundo real, a Terra é a vítima. Outra blasfêmia nas quase duas horas e quarenta minutos de tempo perdido é o fato de o G8, o grupo dos mais poderosos países do mundo, serem os salvadores dos humanos (os que podem pagar muito em euros, é claro!). Na verdade, o grupo de ricos é o maior responsável pelo colapso do planeta. E uma crítica a ser aprofundada por algum intelectual: a China aparece, em "2012", como mera executora dos projetos. Outra parte chinfrim são os helicópteros, em plena neve, levando animais africanos para as tais arcas. Senhor Emmerich, hoje já existe tecnologia para armazenar o código genético, sobrando mais espaço na geringonça flutuante.
A espiritualidade, um patrimônio humano, também é ridicularizada na baboseira. O piloto orando e mostrado como um imbecil, o Cristo Redentor tombando pela fúria da “natureza” e a Basílica de São Pedro caindo, em um único bloco, sobre os fiéis que recebem a derradeira bênção pontifícia. Quanta tolice! Se o autor tivesse o menor conhecimento de religião, saberia que, em todas (as sérias), a mensagem sempre é de esperança. Este mundo acaba, e de forma cinematograficamente catastrófica, só para os incrédulos.
Fica um elogio (só um, para minha tristeza): o marketing social. Diferente dos autores de nossas novelas, os americanos sabem fazê-lo muito bem. Os negros têm papel de destaque, sem precisar fazer discursos sobre racismo. Isso aconteceu também em "Independence Day", do mesmo autor. A sempre esquecida África sobrevive à catástrofe e, nela, a humanidade, ou melhor, quem pagou passagem nas arcas, recomeçará.
O cinema e outras formas de arte não precisam mostrar a realidade. É diversão e nada mais. No entanto, desde que o tema trabalhe com ideologias claras, o público tem direito de questionar a obra. Nunca é demais lembrar: por trás e na frente da tela, há pessoas. Comunicação é troca e, se o nosso cotidiano fornece subsídios, podemos dialogar com quem se inspira nele.
Um segredo: estou torcendo para esse filme ganhar uma sacola cheia de estatuetas do Oscar. Isso apenas confirmaria minha tese de que esse prêmio, como o próprio filme, reconhece menos a obra e mais a propaganda do dominador.
Poderia gastar mais linhas comentando 2012, mas não quero cair no mesmo erro do autor. Longe de mim tomar o tempo de alguém.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Por um Natal com menos brilho
Alessandro Faleiro Marques*
Esta época é excelente para algumas reflexões. Por todos os lados, vemos mensagens, demonstrações de afeto (ainda que só em aparência) e até sinceros gestos de perdão de si e dos outros, de recomeço, como deve ser a vida. Diferente das muitas previsíveis mensagens a pipocar em todos os meios, eu gostaria de desejar algo diferente neste ano: tenha o nosso Natal menos brilho.
O nascimento de Cristo é, em si, um protesto divino contra uma certa canalhice de nossos dias, inclusive nesta época do ano. Para explicar, voltemos às origens, há mais de 2 000 anos. Contemplemos a cena de uma criança obrigada a nascer em um nada estético e mercadológico curral da minúscula Belém, envolto em faixas e colocado em um cocho. Sim, engula-se: Deus nasceu pobre, muito pobre. A quem pensa que ser abençoado é ter coisas, está aí um estridente recado. Desde ali, o Menino Deus já iniciava sua missão. Os primeiros do povo a serem avisados da grande notícia foram os pastores, trabalhadores discriminados na época. O mesmo seria na ressurreição (o maior acontecimento da fé cristã), quando Maria Madalena, representante das mulheres, foi a primeira a testemunhar a grande novidade naquela cultura machista.
Sem firulas, ouso dizer: o Salvador deve rir de pessoas que gastam 12 mil reais em uma árvore de Natal, 11 mil para enfeitar a casa com luzes coloridas, mas ignora um centavo para o próximo pôr pão na mesa, pelo menos nesta época do ano. Ele deve dar gargalhadas de escárnio contra quem acende luzes externas, enquanto as do coração continuam apagadas, imbecis e artificiais como a neve de espuma de sabão a enfeitar vários shoppings.
Caríssimos, oremos para que o Natal, de agora para frente, tenha mais clareza e menos brilho. Destronemos o Papai Noel (não falo do corajoso bispo Nicolau, santo) e coloquemos no lugar o presépio, criação do ricamente pobre Francisco de Assis. Façamos a experiência de resgatar da esmola das horas extras os trabalhadores explorados pelo sistema adorador das trevas dos pisca-piscas. Em último caso, valorizemos os artesãos, as lojinhas e as mercearias, aonde podemos ir a pé e somos chamados pelo nome.
Senhor, obrigado pela chance de, pelo outro, podermos vê-lo, ouvi-lo e sentir seu afeto e até os seus puxões de orelha durante todo o ano. Em nome de nossa saúde, haja, em todas as mesas, as delícias do suficiente, não só na ceia sagrada da noite da Estrela, mas em todas do ano. Que caiam os números dos gráficos financeiros e cresça nossa felicidade. Que resplandeça somente a sua luz. Amém.
A todos a minha clandestina, mas sincera, bênção “urbi et orbi”.
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).
Esta época é excelente para algumas reflexões. Por todos os lados, vemos mensagens, demonstrações de afeto (ainda que só em aparência) e até sinceros gestos de perdão de si e dos outros, de recomeço, como deve ser a vida. Diferente das muitas previsíveis mensagens a pipocar em todos os meios, eu gostaria de desejar algo diferente neste ano: tenha o nosso Natal menos brilho.
O nascimento de Cristo é, em si, um protesto divino contra uma certa canalhice de nossos dias, inclusive nesta época do ano. Para explicar, voltemos às origens, há mais de 2 000 anos. Contemplemos a cena de uma criança obrigada a nascer em um nada estético e mercadológico curral da minúscula Belém, envolto em faixas e colocado em um cocho. Sim, engula-se: Deus nasceu pobre, muito pobre. A quem pensa que ser abençoado é ter coisas, está aí um estridente recado. Desde ali, o Menino Deus já iniciava sua missão. Os primeiros do povo a serem avisados da grande notícia foram os pastores, trabalhadores discriminados na época. O mesmo seria na ressurreição (o maior acontecimento da fé cristã), quando Maria Madalena, representante das mulheres, foi a primeira a testemunhar a grande novidade naquela cultura machista.
Sem firulas, ouso dizer: o Salvador deve rir de pessoas que gastam 12 mil reais em uma árvore de Natal, 11 mil para enfeitar a casa com luzes coloridas, mas ignora um centavo para o próximo pôr pão na mesa, pelo menos nesta época do ano. Ele deve dar gargalhadas de escárnio contra quem acende luzes externas, enquanto as do coração continuam apagadas, imbecis e artificiais como a neve de espuma de sabão a enfeitar vários shoppings.
Caríssimos, oremos para que o Natal, de agora para frente, tenha mais clareza e menos brilho. Destronemos o Papai Noel (não falo do corajoso bispo Nicolau, santo) e coloquemos no lugar o presépio, criação do ricamente pobre Francisco de Assis. Façamos a experiência de resgatar da esmola das horas extras os trabalhadores explorados pelo sistema adorador das trevas dos pisca-piscas. Em último caso, valorizemos os artesãos, as lojinhas e as mercearias, aonde podemos ir a pé e somos chamados pelo nome.
Senhor, obrigado pela chance de, pelo outro, podermos vê-lo, ouvi-lo e sentir seu afeto e até os seus puxões de orelha durante todo o ano. Em nome de nossa saúde, haja, em todas as mesas, as delícias do suficiente, não só na ceia sagrada da noite da Estrela, mas em todas do ano. Que caiam os números dos gráficos financeiros e cresça nossa felicidade. Que resplandeça somente a sua luz. Amém.
A todos a minha clandestina, mas sincera, bênção “urbi et orbi”.
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).
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terça-feira, 10 de novembro de 2009
O Paraíso desde já: duas visões sobre a dor
*Alessandro Faleiro Marques
Hoje, o sexo já não é mais o principal tabu, mas sim as coisas ligadas à doença e à morte. Poucos frequentam com espírito sereno um ambiente de exceção, como um hospital, por exemplo. No contexto cristão, contudo, a dor tem um sentido interessante. Diferente da sociedade da produção, na qual o enfermo muitas vezes é visto como um peso, uma “peça defeituosa”, no cristianismo, aquele que sofre tem uma incumbência singular e, ao mesmo tempo, desafiadora para todos.
Para entender um dos olhares cristãos da dor, voltemos a uma célebre sexta-feira de quase dois mil anos atrás, em Jerusalém. Depois de passar por um dos julgamentos mais questionáveis da História, Jesus foi condenado a morrer na cruz. Segundo o evangelho, durante o caminho do Messias ao calvário, os soldados obrigaram um homem que voltava do campo a carregar o pesado madeiro, pois temiam que o Salvador não tivesse condições de chegar ao final do sinistro itinerário. Mesmo forçado, Simão, da cidade de Cirene (por isso conhecido como Cirineu), ajudou o Cristo a cumprir a Via Dolorosa e, assim, acabou tendo o nome imortalizado na história cristã da salvação (cf. Mt 27,32; Mc 15,21; Lc 23,26).
É possível fazer um paralelo entre o esforço daquele agricultor e o dos doentes. Uma linha teológica diz que os sofredores em geral, entre eles os enfermos, são aqueles que, ainda hoje, ajudam Cristo a carregar a cruz. Como Cirineu, que fez uma “caridade” sem querer, quem chora com a dor não quer passar por ela, mas ganha esse compromisso. Certamente, numa perspectiva de fé, como aconteceu com Simão, é reconhecido por Deus. Em outras palavras, o “dolente” (ou seja, aquele que sente dor) seria da “tropa de elite” divina. Participa do sacrifício messiânico em um dos momentos mais importantes.
Diferente do que acontecia há séculos, a dor não é mais tão destacada, mas sim a ressurreição de Jesus, a vitória sobre o tormento. A gente piedosa, porém, continua identificando-se com a agonia de Cristo. Basta ver que a cultura religiosa popular católica, especialmente a latino-americana, por exemplo, enfoca mais a Sexta-feira da Paixão do que a Páscoa.
O bom cristão, no entanto, não é conformista. Já neste mundo, ele tenta implantar o Reino celeste esperado e prometido. Na lógica da fé, não há dor no Paraíso. Por isso, quem realmente segue os ensinamentos de Jesus não admite sistemas de saúde precários, deficiência na prevenção e descaso contra os enfermos e profissionais que deles cuidam. Essa é a outra forma de o cristianismo ver a dor. A mortificação violenta voluntária, como faziam os antigos místicos, hoje tem pouco sentido.
A luta “para que todos tenham vida e em abundância” (Jo 10,10) é uma legítima tarefa cristã. O próprio Cristo tinha grande compaixão pelos sofredores, e não é difícil achar trechos dos evangelhos em que Ele cura, conforta, alivia o sofrimento físico e espiritual. Ele é o próprio exemplo para seus seguidores fazerem multiplicar, desde hoje, a alegria eterna, numa terra sem males (pelo menos os evitáveis), sem se esquecer da dignidade dos que sofrem.
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Impressões da visita à Rainha Morena (4ª e última parte)
Encantamento e piedade não foram as únicas coisas a nos tocar na rápida peregrinação ao Santuário Nacional. A capital católica do Brasil também tem as suas profanas sombras. São em intensidade menor que as da outra, no planalto central. Em Aparecida, contudo, parecem incomodar mais justamente porque nos pegam despreparados.
Logo ao chegarmos ao estacionamento da Basílica, sentimos muita falta dos caminhoneiros. Um antigo costume leva os viajantes do Vale do Paraíba a fazerem um rápido pouso sob o manto da Mãe de Jesus. Onde estariam? Talvez lá, reduzidos na imensidão do templo, mas não os notamos. Que, pelo menos, os vejamos da próxima vez.
A questão do comércio, demanda histórica dos mais críticos, também nos chamou a atenção. Mesmo nós, resignados em um ambiente urbano, acostumados com lojas ávidas pelo dinheiro das multidões e alimentadas pelo carbono do ar, ficamos um pouco constrangidos com o tamanho do chamado “Centro de Apoio ao Romeiro”. Sinceramente, não é muito diferente dos shoppings populares espalhados pelo Brasil. Que o digam os fabricantes chineses. Tivemos certa boa vontade em ver de outro modo o espaço, mas não deu. Pensamos, por exemplo, ser a música tocada no centro da praça de alimentação uma dessas canções religiosas modernas. Não era. Como em qualquer bom palco violão-banquinho, soava um belo clássico de Djavan. Quando nos demos e fizemos as contas, as sacolas já pesavam nossas mãos. Ofegantes, nós nos flagramos com uma lista na mão e pouco no bolso. Não pudemos nos defender frente à nossa consciência. Durante pouquíssimas horas, perdemos o foco. Pagamos o preço. Literalmente.
Perder o rumo da alma em Aparecida é muito fácil. Uma tentação. Parque de diversões, aquário, mulher-macaco, feira que vende de um a tudo. O pior é quando eles nos perdem a vista. Ficamos chocados quando, do mirante da torre, encontramos só a ponta da outra, a da Basílica Antiga. Antes, do alto da colina, os peregrinos já podiam contemplar o histórico templo. Símbolo de uma viagem bem-sucedida. Um dos célebres milagres registrados na terra da Padroeira foi justamente o de uma menina cega que, ao ser levada pela mãe ao santuário, perguntou de longe se aquele que via era o templo de Nossa Senhora. A ganância de uns, a falta de senso histórico de outros e a ignorância de todos permitiram o cerco de concreto à antiga igreja. Prédios de péssimo gosto arquitetônico sufocaram a praça e parte da história do Brasil. O conjunto da igreja singela e da praça sobrevive, desfigurado.
Ainda quanto ao gosto, fomos vítimas de nosso orgulho. Pecamos de novo. Quando visitamos o santuário de Lujan, na Argentina, tentamos provar algumas das iguarias preparadas por nossos irmãos e vizinhos. As vísceras assadas definitivamente não combinaram com o calor úmido daquele dia. Mesmo assim, salpicando críticas cochichadas em português mineiro, engolimos alguma coisa. Pensamos que, em Aparecida, no nosso santuário, seria nossa apimentada "vingança". Caímos no canto da sereia, disfarçada de porteiro de restaurante. Comemos a pior comida de nossa vida. Um espaguete profano e ruim. Sem graça e caro, quase com direito a troco errado de sobremesa. Ponto para a Nossa Senhora de lá.
Para encerrar a lista das observações mais mundanas, não podemos deixar de mencionar de novo o comércio articulado dentro do próprio santuário. Contemplamos o mirante e o museu. Visita paga, mas justa e proveitosa. Na saída, a porta do elevador nos joga para o corredor demarcado por cordas. Contra a nossa vontade, vimo-nos empurrados para a lojinha, ao pé da torre. O silêncio mútuo da hora denunciou: não gostamos. À direita, outra loja: artigos religiosos, água do Paraíba e até ex-votos de cera. Como se eu, morando na casa de minha mãe, vendesse o presente que você daria para ela. Na gloriosa Sala das Promessas, o resultado: os membros de cera são praticamente iguais. Produção em série. Por conveniência, os peregrinos estão deixando de levar seus objetos cheios do colorido regional. Eles os compram ali, ao lado. O espaço, resumo do Brasil, como já dito nesta série, perdendo parte do brilho.
Não gostaríamos de terminar esta série falando mal da Mãe. Afinal, ela nos acolhe e sabe nosso nome. Temperos ruins, ganância e bolsos vazios não impedirão nossa volta à casa da Rainha Morena. Pecadores também somos. Como acontece quando nos aproximamos da mãe, aprendemos mais uma lição. Aqui virou reza: Mãe, negra e pobre como os pobres escravos, Rainha rica em bondade e beleza, fecha nossos olhos e ouvidos ao que nos desvia de teu Filho e de ti. Abre nossa alma para ouvirmos o teu silêncio sábio. Permite podermos contemplar só a tua sabedoria, os teus olhos e o teu doce e barroco sorriso. Que o sabor de tua casa seja o do pão dos anjos. Sejam os caminhos planos, mesmo no subir da Serra. Mãe, como fizemos em teu santuário, visita a nossa casa. Amém.
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator, peregrino e revisor de textos
Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com)
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sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Querem esterilizar a história
Alessandro Faleiro Marques*
Em vários contextos e por motivações diferentes, está havendo uma campanha contra os crucifixos. Algumas autoridades dizem que o Estado é laico (conceito quase sempre confundido com "ateu") e, nas dependências de suas instituições, não deve haver símbolos religiosos. Os incrédulos já procuram outro “enfeite”, e até os religiosos andam trocando o crucifixo no pescoço por um potente pen drive, talvez mais útil para eles nestes tempos pós-modernos.
Dias atrás, em um curso (muito proveitoso, diga-se), ouvi de um religioso que, na nova configuração dos templos católicos, tende-se a um destaque aos ícones do Cristo ressuscitado, substituindo as cruzes colocadas segundo as atuais normas litúrgicas. O foco em Jesus vitorioso sobre a morte é justíssimo entre os cristãos, afinal é o evento mais célebre dessa fé. Preocupa-me, porém, outro ponto da pendenga.
A palavra “sacrifício” tem origem no latim “sacrificium” (“sacer”: sagrado; “facere”: fazer), ou seja, fazer sagrada alguma coisa. O paralelo com o pensamento pós-moderno foi inevitável. Neste início de milênio, o individualismo, o prazer instantâneo, a pressa irracional e o excesso de informações fragmentadas nos sufocam e, ao mesmo tempo, envolvem-nos. De repente, estamos nós a propagar valores questionáveis. Quando nos damos conta, já somos parte ativa do "sistemão". Virou coisa do passado esforçar-se pacientemente para realizar um sonho, dar um passo de cada vez.
Se os seguidores de Cristo comemoram a Páscoa, a ressurreição do Ungido, é porque, antes, houve a morte dele. A cruz era, no Império Romano, um instrumento de terror usado para executar pessoas extremamente perigosas para aquele sistema; e Jesus era uma delas. Os primeiros cristãos a rejeitavam como símbolo, pois conheciam de perto o que ela representava. Era sinal de medo e vergonha. Só mais tarde, talvez no século III, a cruz ganhou uma conotação religiosa, celebrando a passagem de Jesus por ela para tornar sagrado o seu projeto.
A atitude de ignorar a cruz hoje pode reforçar algumas injustiças. Se vale somente o Jesus ressuscitado, já pronto, nesta nova concepção, doentes, encarcerados, miseráveis e outros excluídos podem ser esquecidos inclusive pelos cristãos mais distraídos. Será um incremento à “teologia da prosperidade” (outro reflexo do atual hedonismo), segundo a qual só os que possuem são os abençoados.
Ignorar os marginalizados, certamente representados naquele crucificado, é dar outro golpe no Deus que “sacia de bens os famintos e despede sem nada os ricos” (Lc 1,53). E mais: a sociedade do descartável agradece; agora tem outra boa ideologia para justificar-se. Enfermos, idosos, crianças, desempregados, analfabetos serão aterrados, pois não produzem e nem compram, são peças quebradas, inúteis nas engrenagens insaciáveis do “mercado”, feito de carne e osso.
Mesmo quem não professa o cristianismo ou qualquer outra fé deve refletir sobre essa onda de jogar para debaixo do tapete o sangue, o pó, a tortura, o sofrimento divino e humano ao mesmo tempo. Isso pode refletir-se em valores que transcendem escolhas espirituais e afetar a vida de todos. Nós também precisamos do Deus imundo e ensanguentado.
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).
Em vários contextos e por motivações diferentes, está havendo uma campanha contra os crucifixos. Algumas autoridades dizem que o Estado é laico (conceito quase sempre confundido com "ateu") e, nas dependências de suas instituições, não deve haver símbolos religiosos. Os incrédulos já procuram outro “enfeite”, e até os religiosos andam trocando o crucifixo no pescoço por um potente pen drive, talvez mais útil para eles nestes tempos pós-modernos.
Dias atrás, em um curso (muito proveitoso, diga-se), ouvi de um religioso que, na nova configuração dos templos católicos, tende-se a um destaque aos ícones do Cristo ressuscitado, substituindo as cruzes colocadas segundo as atuais normas litúrgicas. O foco em Jesus vitorioso sobre a morte é justíssimo entre os cristãos, afinal é o evento mais célebre dessa fé. Preocupa-me, porém, outro ponto da pendenga.
A palavra “sacrifício” tem origem no latim “sacrificium” (“sacer”: sagrado; “facere”: fazer), ou seja, fazer sagrada alguma coisa. O paralelo com o pensamento pós-moderno foi inevitável. Neste início de milênio, o individualismo, o prazer instantâneo, a pressa irracional e o excesso de informações fragmentadas nos sufocam e, ao mesmo tempo, envolvem-nos. De repente, estamos nós a propagar valores questionáveis. Quando nos damos conta, já somos parte ativa do "sistemão". Virou coisa do passado esforçar-se pacientemente para realizar um sonho, dar um passo de cada vez.
Se os seguidores de Cristo comemoram a Páscoa, a ressurreição do Ungido, é porque, antes, houve a morte dele. A cruz era, no Império Romano, um instrumento de terror usado para executar pessoas extremamente perigosas para aquele sistema; e Jesus era uma delas. Os primeiros cristãos a rejeitavam como símbolo, pois conheciam de perto o que ela representava. Era sinal de medo e vergonha. Só mais tarde, talvez no século III, a cruz ganhou uma conotação religiosa, celebrando a passagem de Jesus por ela para tornar sagrado o seu projeto.
A atitude de ignorar a cruz hoje pode reforçar algumas injustiças. Se vale somente o Jesus ressuscitado, já pronto, nesta nova concepção, doentes, encarcerados, miseráveis e outros excluídos podem ser esquecidos inclusive pelos cristãos mais distraídos. Será um incremento à “teologia da prosperidade” (outro reflexo do atual hedonismo), segundo a qual só os que possuem são os abençoados.
Ignorar os marginalizados, certamente representados naquele crucificado, é dar outro golpe no Deus que “sacia de bens os famintos e despede sem nada os ricos” (Lc 1,53). E mais: a sociedade do descartável agradece; agora tem outra boa ideologia para justificar-se. Enfermos, idosos, crianças, desempregados, analfabetos serão aterrados, pois não produzem e nem compram, são peças quebradas, inúteis nas engrenagens insaciáveis do “mercado”, feito de carne e osso.
Mesmo quem não professa o cristianismo ou qualquer outra fé deve refletir sobre essa onda de jogar para debaixo do tapete o sangue, o pó, a tortura, o sofrimento divino e humano ao mesmo tempo. Isso pode refletir-se em valores que transcendem escolhas espirituais e afetar a vida de todos. Nós também precisamos do Deus imundo e ensanguentado.
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).
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quinta-feira, 1 de outubro de 2009
O palavrão do livro didático
Alessandro Faleiro Marques*
Os adeptos dos orgasmos pedagógicos que me desculpem, mas uma notícia na tevê me deixou com um nó nas entranhas. Um livro didático distribuído pelo governo de Minas Gerais para alunos do ensino fundamental trazia um texto cheio de palavrões, termos chulos, tabuísmos e tudo mais que o eufemismo tenta aliviar. A justificativa: os personagens precisariam disso para poder criticar uma situação excludente. Confesso: tive de rever a notícia para acreditar. E o pior, a polêmica se deu também em escolas públicas de outros estados, em obras aprovadas pelas respectivas secretarias de Educação.
O mais bizarro disso, deixando-me boquiaberto, é alguns educadores aprovarem a ideia. Felizmente foi a minoria. Nenhum governante pediu minha palavra, apenas cobrou de mim os impostos para financiar essa aberração, mas ressalto: é um absurdo! Sou um cafona assumido em algumas questões educacionais. Sou dos bons tempos da escola ensinando coisas boas. Os educadores andavam bem arrumados (mesmo ganhando mal), emanavam sabedoria e se davam respeito. Aprendi muita coisa com o exemplo deles. Sou testemunha de que o ensino não verbal também é importante num ambiente nobre como eram as escolas públicas onde estudei.
Para mim, não serve a desculpa de ser a vida fora da escola cheia de mazelas e de fatos pouco publicáveis. Disseram que os alunos devem aprender da realidade. Outro disparate! Se fosse assim, por que estudar sobre a neve (clássico exemplo) ou sobre o Saara? Não pertencem ao nosso cotidiano. Não me lembro de ter trocado tiros com meus colegas para aprender sobre as guerras. Senhores educadores, voltemos às origens (as boas, é claro). Esqueçamos um pouco o governo e algumas teorias só teóricas. Sejamos verdadeiramente mestres por dentro e por fora.
Quanto ao livro esquisito, gostaria de solidarizar-me com pais, educadores e alunos (sim, eles também) que desaprovaram a asneira. Ânimo! Vamos continuar fazendo tudo para ver se essa geração de boné na cabeça e bermudão tenha o mínimo de valores. Não deixemos de lado a escola, apoiemos as boas iniciativas dela e continuemos a cobrar dos nossos governantes mais investimentos para a nossa juventude.
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).
Os adeptos dos orgasmos pedagógicos que me desculpem, mas uma notícia na tevê me deixou com um nó nas entranhas. Um livro didático distribuído pelo governo de Minas Gerais para alunos do ensino fundamental trazia um texto cheio de palavrões, termos chulos, tabuísmos e tudo mais que o eufemismo tenta aliviar. A justificativa: os personagens precisariam disso para poder criticar uma situação excludente. Confesso: tive de rever a notícia para acreditar. E o pior, a polêmica se deu também em escolas públicas de outros estados, em obras aprovadas pelas respectivas secretarias de Educação.
O mais bizarro disso, deixando-me boquiaberto, é alguns educadores aprovarem a ideia. Felizmente foi a minoria. Nenhum governante pediu minha palavra, apenas cobrou de mim os impostos para financiar essa aberração, mas ressalto: é um absurdo! Sou um cafona assumido em algumas questões educacionais. Sou dos bons tempos da escola ensinando coisas boas. Os educadores andavam bem arrumados (mesmo ganhando mal), emanavam sabedoria e se davam respeito. Aprendi muita coisa com o exemplo deles. Sou testemunha de que o ensino não verbal também é importante num ambiente nobre como eram as escolas públicas onde estudei.
Para mim, não serve a desculpa de ser a vida fora da escola cheia de mazelas e de fatos pouco publicáveis. Disseram que os alunos devem aprender da realidade. Outro disparate! Se fosse assim, por que estudar sobre a neve (clássico exemplo) ou sobre o Saara? Não pertencem ao nosso cotidiano. Não me lembro de ter trocado tiros com meus colegas para aprender sobre as guerras. Senhores educadores, voltemos às origens (as boas, é claro). Esqueçamos um pouco o governo e algumas teorias só teóricas. Sejamos verdadeiramente mestres por dentro e por fora.
Quanto ao livro esquisito, gostaria de solidarizar-me com pais, educadores e alunos (sim, eles também) que desaprovaram a asneira. Ânimo! Vamos continuar fazendo tudo para ver se essa geração de boné na cabeça e bermudão tenha o mínimo de valores. Não deixemos de lado a escola, apoiemos as boas iniciativas dela e continuemos a cobrar dos nossos governantes mais investimentos para a nossa juventude.
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
O Deus de “A Cabana”
Alessandro Faleiro Marques*
Como a literatura brasileira, com exceções, anda vivendo basicamente de autoajuda e relançamentos, “A Cabana”, mais uma obra internacional, movimenta as livrarias do Brasil. Depois do sucesso de “O Código da Vinci” e “Anjos e Demônios”, a religião volta a atiçar a curiosidade do leitor. “A Cabana”, do escritor canadense William P. Young (Editora Sextante, 2008. 240 p.), retoma a velha e bem-sucedida fórmula de colocar frente a frente Deus e o ser humano.
Depois do assassinato da filha, Mackenzie Allen Phillips (ou Mack, como é chamado no livro), típico americano de classe média, recebe um bilhete assinado por “Papai”. Não resistindo ao convite, o protagonista (humano) decide passar um final de semana no lugar indicado, a floresta onde teria sido morta a caçula. Numa cabana abandonada, que ganha um novo cenário, digno de uma aparição divina, ele tem um diálogo impressionante com as três pessoas da Santíssima Trindade: “Papai”, Jesus e Sarayu. Como em qualquer boa conversa com Deus, Mack passa por um envolvente processo de questionamento e purificação.
Quem imagina o Senhor de barba longa, camisola branca e com cara de bravo vai decepcionar-se. O livro resgata o Abba, o Papai de Jesus, algo que, há dois milênios, o Salvador nos ensinou a fazer, apesar de muitos ainda resistirem à ideia.
Em “A cabana”, “Papai” é uma senhora negra, bonachona, uma mãe boa de conselhos e de cozinha. Nada que os cristãos de verdade não deveriam já saber. O Papa João Paulo I, mesmo governando a Igreja por 34 dias, em 1978, deixou como legado espiritual a ideia de Deus Pai e Mãe ao mesmo tempo. Obviamente, Mack, como a maioria dos fiéis, custa a acostumar-se com aquela figura. Ponto para o autor. Sarayu, a moça oriental de atitude leve, é uma boa representação do Espírito Santo. Ela é jardineira, encantada, livre. Onde ela está, sempre há perfume, ar. A palavra “espírito” significa brisa, sopro, vento. “O vento sopra onde quer”, já dizia São João (Jo 3,8), e Sarayu é assim. Em boa parte do enredo, é uma figura estranha para o convidado. Com feições orientais, Jesus é um marceneiro, companheiro físico e espiritual de Mack. Em relação ao Redentor, parece haver menos estranhamento da parte do visitante. Pudera: Jesus é “Deus Conosco”, o Verbo encarnado. No entendimento de Mack, Cristo conhece bem as limitações humanas. Nada contrário à fé de um cristão atento.
Em livros como “A Cabana”, às vezes, o problema são os leitores. Da parte do autor, ele fez o que pôde para contar uma boa história. Conteúdos acessíveis e bons, cenários e personagens interessantes, desfecho surpreendente. O engraçado nisso é os leitores pensarem ser a obra um novo livro sagrado. No próprio volume, há uma campanha para divulgá-lo (é claro!). Eu mesmo o fiz (e estou fazendo agora), mas no aspecto literário, não teológico. Espiritueiros de última hora acham que descobriram a roda, como aconteceu ao lerem clássicos como a série “Operação Cavalo de Troia”, de J.J. Benítez, sucesso até hoje. Pensam saber de tudo dos bastidores vaticanos com “Anjos e Demônios” e ser “O Código da Vinci” um guia turístico-religioso. O mercado literário e cinematográfico, principalmente o estrangeiro, agradece.
Achar que Deus vai baixar do Céu e vir à Terra conversar com os homens é recurso transcendental fácil. Para todos, uma boa notícia pelos olhos da fé: a Trindade já está entre nós. A experiência de Deus acontece todos os dias, nos lugares e formas mais interessantes. A unidade das Três Pessoas se manifesta no próximo, sobretudo nos pobres “em” (não “de”) espírito, nos doentes, nos encarcerados, nos excluídos. A obra divina se mostra na beleza da arte, da natureza. “Mamãe” se deixa ouvir no silêncio. Não adianta tocar-se com a mensagem de Papai, de Jesus e de Sarayu e deixar de olhar em volta, de valorizar a vida. A criação iniciada por Deus continua sob nossa responsabilidade. Cuidar do outro e deixar-se cuidar é atitude espiritual.
Se alguém quiser ouvir Jesus realmente, pasmem, os evangelhos ainda são a fonte mais segura. Neles, Cristo é mais surpreendente do que em “A Cabana”. “Papai” já foi anunciado assim há dois mil anos. Quanto ao Espírito, a Brisa, deste não posso falar, pois acabou a minha inspiração, deve ter ido soprar em outro ouvido.
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).
Como a literatura brasileira, com exceções, anda vivendo basicamente de autoajuda e relançamentos, “A Cabana”, mais uma obra internacional, movimenta as livrarias do Brasil. Depois do sucesso de “O Código da Vinci” e “Anjos e Demônios”, a religião volta a atiçar a curiosidade do leitor. “A Cabana”, do escritor canadense William P. Young (Editora Sextante, 2008. 240 p.), retoma a velha e bem-sucedida fórmula de colocar frente a frente Deus e o ser humano.
Depois do assassinato da filha, Mackenzie Allen Phillips (ou Mack, como é chamado no livro), típico americano de classe média, recebe um bilhete assinado por “Papai”. Não resistindo ao convite, o protagonista (humano) decide passar um final de semana no lugar indicado, a floresta onde teria sido morta a caçula. Numa cabana abandonada, que ganha um novo cenário, digno de uma aparição divina, ele tem um diálogo impressionante com as três pessoas da Santíssima Trindade: “Papai”, Jesus e Sarayu. Como em qualquer boa conversa com Deus, Mack passa por um envolvente processo de questionamento e purificação.
Quem imagina o Senhor de barba longa, camisola branca e com cara de bravo vai decepcionar-se. O livro resgata o Abba, o Papai de Jesus, algo que, há dois milênios, o Salvador nos ensinou a fazer, apesar de muitos ainda resistirem à ideia.
Em “A cabana”, “Papai” é uma senhora negra, bonachona, uma mãe boa de conselhos e de cozinha. Nada que os cristãos de verdade não deveriam já saber. O Papa João Paulo I, mesmo governando a Igreja por 34 dias, em 1978, deixou como legado espiritual a ideia de Deus Pai e Mãe ao mesmo tempo. Obviamente, Mack, como a maioria dos fiéis, custa a acostumar-se com aquela figura. Ponto para o autor. Sarayu, a moça oriental de atitude leve, é uma boa representação do Espírito Santo. Ela é jardineira, encantada, livre. Onde ela está, sempre há perfume, ar. A palavra “espírito” significa brisa, sopro, vento. “O vento sopra onde quer”, já dizia São João (Jo 3,8), e Sarayu é assim. Em boa parte do enredo, é uma figura estranha para o convidado. Com feições orientais, Jesus é um marceneiro, companheiro físico e espiritual de Mack. Em relação ao Redentor, parece haver menos estranhamento da parte do visitante. Pudera: Jesus é “Deus Conosco”, o Verbo encarnado. No entendimento de Mack, Cristo conhece bem as limitações humanas. Nada contrário à fé de um cristão atento.
Em livros como “A Cabana”, às vezes, o problema são os leitores. Da parte do autor, ele fez o que pôde para contar uma boa história. Conteúdos acessíveis e bons, cenários e personagens interessantes, desfecho surpreendente. O engraçado nisso é os leitores pensarem ser a obra um novo livro sagrado. No próprio volume, há uma campanha para divulgá-lo (é claro!). Eu mesmo o fiz (e estou fazendo agora), mas no aspecto literário, não teológico. Espiritueiros de última hora acham que descobriram a roda, como aconteceu ao lerem clássicos como a série “Operação Cavalo de Troia”, de J.J. Benítez, sucesso até hoje. Pensam saber de tudo dos bastidores vaticanos com “Anjos e Demônios” e ser “O Código da Vinci” um guia turístico-religioso. O mercado literário e cinematográfico, principalmente o estrangeiro, agradece.
Achar que Deus vai baixar do Céu e vir à Terra conversar com os homens é recurso transcendental fácil. Para todos, uma boa notícia pelos olhos da fé: a Trindade já está entre nós. A experiência de Deus acontece todos os dias, nos lugares e formas mais interessantes. A unidade das Três Pessoas se manifesta no próximo, sobretudo nos pobres “em” (não “de”) espírito, nos doentes, nos encarcerados, nos excluídos. A obra divina se mostra na beleza da arte, da natureza. “Mamãe” se deixa ouvir no silêncio. Não adianta tocar-se com a mensagem de Papai, de Jesus e de Sarayu e deixar de olhar em volta, de valorizar a vida. A criação iniciada por Deus continua sob nossa responsabilidade. Cuidar do outro e deixar-se cuidar é atitude espiritual.
Se alguém quiser ouvir Jesus realmente, pasmem, os evangelhos ainda são a fonte mais segura. Neles, Cristo é mais surpreendente do que em “A Cabana”. “Papai” já foi anunciado assim há dois mil anos. Quanto ao Espírito, a Brisa, deste não posso falar, pois acabou a minha inspiração, deve ter ido soprar em outro ouvido.
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).
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quinta-feira, 3 de setembro de 2009
A Guerreira que devolveu a música aos brasileiros
Alessandro Faleiro Marques*
Nestas duas últimas décadas, quem vê cantoras levando multidões a estádios, parques de exposição e casas de espetáculo nem imagina como foi difícil as mulheres conquistarem também o espaço dos palcos. Desde a magnífica Chiquinha Gonzaga e talvez outras que viveram antes dela, enterradas bem fundo pela ignorância histórica, muitas vezes as artistas eram desacreditadas.
Entre as décadas de 1960 e início da de 1980, a história resolveu mudar. Nas ladainhas em latim entoadas pelo coro da matriz de Caetanópolis, em Minas Gerais, ouvia-se a voz da menina Clara Francisca Gonçalves Pinheiro. Com o sobrenome artístico herdado da mãe, passou a ser chamada de Clara Nunes. Depois de muito sucesso no rádio e inspirada por vozes de outras grandes mulheres, como de Carmem Costa, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira e Ângela Maria, Clara gradualmente se tornou uma espécie de embaixadora da música brasileira para os próprios brasileiros.
A missão da Guerreira veio em uma época particularmente difícil para a nossa música popular. Por motivos nem sempre nobres, nos anos 60 e 70, as canções estrangeiras, sobretudo as estadunidenses, esmagavam muitos talentos nacionais e devassavam os espaços na mídia. Muitos sucessos em português apresentados por artistas do Brasil nada mais eram do que “releituras” das músicas compostas por artistas dos EUA ou da Inglaterra. Por ignorância ou sede de sucesso, muitos tinham pseudônimos em inglês e nessa língua cantavam. Tudo sob a conivência do público, faça-se justiça.
Por outro lado, cheia de alegria, com seus balangandãs, levando o chocalho na canela, e paramentada com o vestido branco da umbanda, Clara Nunes relembrou ao povo: existia samba além carnaval e forró além São João. Com Sivuca, ela contou ao Brasil como era a Feira de Mangaio, tudo ao som de uma contagiante e puríssima sanfona nordestina. Na voz dela, o Brasil ouvia em samba e coral afro um dos mais célebres lamentos nacionais, o Canto das Três Raças. Quem melhor do que Clara poderia interpretar a comparação entre o desfile da Portela e uma procissão?
Alguém agora pode estar lembrando-se agora do papel de Elis Regina. A missão de Elis foi a de refinar a música, lançando novos nomes e um jeito caloroso de interpretar. Por isso, ainda hoje, ela atrai mais o público “cult”. Não é muito o caso de Clara Nunes. Esta também tinha uma interpretação maravilhosa, no entanto fez mais um trabalho de resgate de algo que existia, mas andava esquecido pelo povo. Por providência divina, Clara e Elis viveram na mesma época e partiram cedo, deixando, cada uma a seu modo, uma importantíssima contribuição para a cultura brasileira.
A própria vida de Clara Nunes é a principal mensagem que ela nos dá. De menina do interior a operária e grande cantora popular, a primeira a vender mais de cem mil cópias, quebrando um tabu, a “tal mineira” foi uma legítima brasileira. A moça adotada pelo povo ainda nos quer chamar a atenção para as vozes divinas de homens e mulheres que a mídia insiste em silenciar. Ela nos pede um olhar mais carinhoso para as nossas raízes preciosas nestes tempos de muito barulho, falta de melodia e de criatividade. Quem melhor poderia ser chamada de Guerreira?
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).
Nestas duas últimas décadas, quem vê cantoras levando multidões a estádios, parques de exposição e casas de espetáculo nem imagina como foi difícil as mulheres conquistarem também o espaço dos palcos. Desde a magnífica Chiquinha Gonzaga e talvez outras que viveram antes dela, enterradas bem fundo pela ignorância histórica, muitas vezes as artistas eram desacreditadas.
Entre as décadas de 1960 e início da de 1980, a história resolveu mudar. Nas ladainhas em latim entoadas pelo coro da matriz de Caetanópolis, em Minas Gerais, ouvia-se a voz da menina Clara Francisca Gonçalves Pinheiro. Com o sobrenome artístico herdado da mãe, passou a ser chamada de Clara Nunes. Depois de muito sucesso no rádio e inspirada por vozes de outras grandes mulheres, como de Carmem Costa, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira e Ângela Maria, Clara gradualmente se tornou uma espécie de embaixadora da música brasileira para os próprios brasileiros.
A missão da Guerreira veio em uma época particularmente difícil para a nossa música popular. Por motivos nem sempre nobres, nos anos 60 e 70, as canções estrangeiras, sobretudo as estadunidenses, esmagavam muitos talentos nacionais e devassavam os espaços na mídia. Muitos sucessos em português apresentados por artistas do Brasil nada mais eram do que “releituras” das músicas compostas por artistas dos EUA ou da Inglaterra. Por ignorância ou sede de sucesso, muitos tinham pseudônimos em inglês e nessa língua cantavam. Tudo sob a conivência do público, faça-se justiça.
Por outro lado, cheia de alegria, com seus balangandãs, levando o chocalho na canela, e paramentada com o vestido branco da umbanda, Clara Nunes relembrou ao povo: existia samba além carnaval e forró além São João. Com Sivuca, ela contou ao Brasil como era a Feira de Mangaio, tudo ao som de uma contagiante e puríssima sanfona nordestina. Na voz dela, o Brasil ouvia em samba e coral afro um dos mais célebres lamentos nacionais, o Canto das Três Raças. Quem melhor do que Clara poderia interpretar a comparação entre o desfile da Portela e uma procissão?
Alguém agora pode estar lembrando-se agora do papel de Elis Regina. A missão de Elis foi a de refinar a música, lançando novos nomes e um jeito caloroso de interpretar. Por isso, ainda hoje, ela atrai mais o público “cult”. Não é muito o caso de Clara Nunes. Esta também tinha uma interpretação maravilhosa, no entanto fez mais um trabalho de resgate de algo que existia, mas andava esquecido pelo povo. Por providência divina, Clara e Elis viveram na mesma época e partiram cedo, deixando, cada uma a seu modo, uma importantíssima contribuição para a cultura brasileira.
A própria vida de Clara Nunes é a principal mensagem que ela nos dá. De menina do interior a operária e grande cantora popular, a primeira a vender mais de cem mil cópias, quebrando um tabu, a “tal mineira” foi uma legítima brasileira. A moça adotada pelo povo ainda nos quer chamar a atenção para as vozes divinas de homens e mulheres que a mídia insiste em silenciar. Ela nos pede um olhar mais carinhoso para as nossas raízes preciosas nestes tempos de muito barulho, falta de melodia e de criatividade. Quem melhor poderia ser chamada de Guerreira?
* Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos. Texto original publicado no site Caos e Letras (www.caoseletras.com).
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